Aruitemo Aruitemo
Título Original: Aruitemo Aruitemo
Título em Português: Andando
Realizado por: Hirokazu Koreeda
Actores: Hiroshi Abe, You, Yoshio Harada, Ryôga Hayashi, Haruko Kato, Kirin Kiki, Hotaro Nomoto, Yui Natsukawa, Shohei Tanaka, Susumu Terajima
Data: 2008
País de Origem: Japão
Duração: 114 min.
M/6
Cor, Som
Andando ou a arte do gerúndio
Sem querer justificar, por ora, poder-se-ia atribuir a Andando, filme entre nós estreado, uma capacidade singular de transfigurar a realidade num longo, delicado e silencioso gerúndio. Anteriormente, ao determo-nos sobre o tema fulcral da obra de Hirokazu Kore-eda apontámos a omnipresente e cortante ausência, figurada de várias perspectivas, que minava os afectos dos personagens, catapultando-os numa batalha em que apenas a memória (ou a ausência dela) surgia como solução à angústia. A verdade é que Kore-eda neste Andando não esquece ausências particulares, mas sujeita-as ao crivo de uma longa meditação formal - tão honesta e sensível - reveladora da subtil força do real: um gerúndio eterno, um estar-se-a-fazer infinito.
Por isso se nos apresenta uma narrativa desprovida de verticalidade. Em Andando, apenas existe naturalismo fílmico, a singularidade e a subtileza de gestos, a mímica e um ler-nas-entrelinhas constante, justamente por causa dos diálogos ricamente ambivalentes. A própria ausência nunca esteve tão… presente, pois se a ausência, ela própria, se tem de filmar, aqui é relegada para aparição fantasmagórica, ou seja, o aniversário simbólico da morte do filho mais velho, Junpei, que permite a reunião familiar que iremos assistir. Se bem que essa ausência (a ausência fantasmática do filho) está pairando no ambiente sonâmbulo familiar, ela não toma a violência, nem a intensidade dramática do resto da filmografia de Kore-eda.
Há dois planos em especial que atestam a veracidade do que se disse: o primeiro é relativo ao momento quando a família se prepara para tirar uma fotografia colectiva e a câmara foca insistentemente o altar funerário de Junpei, esquecendo-se dos vivos que percorrem o plano apressada e desfocadamente, como se fosse devolvido ao morto a visão do decorrer das cerimónias, quinze anos após o seu acidente. O segundo corresponde à cena, mais directa, em que a Avó percorre uma borboleta amarela, na expectativa de esta ser o seu defunto filho, procurando-a. É esse olhar ressuscitado, fornecido ao inanimado, que mesmo inconscientemente torna mais presente a ausência mais imediata.
Certamente, e como não podia deixar de ser, esta estética da devolução do olhar rememora o clássico ultra-citado Yasujiro Ozu. Também nesse cinema a câmara de filmar adoptava pontos-de-vista subjectivos para realidades não-subjectivas, como objectos ou edifícios. Da mesma forma, a existência única de diálogos e comportamentos mundanos, no limite do filmável, rememoram os artifícios necessários para a construção da realidade, tão presentes num filme de Ozu, como neste Andando. No entanto, a subtileza movediça dos diálogos e a violência contida num sorriso vazio ou num comentário maliciosamente inocente, relembram bastante mais Mikio Naruse. Porém, deixando de parte as referências cinéfilas (que não são, de todo o modo, motivações), e das quais ainda podíamos incluir a obra de Hou Hsiao Hsien (no que concerne os escassos movimentos de câmara, por exemplo) ou Ken Loach, é imperativo voltar à serenidade apaixonante de Andando.
Filme que nos enreda na sua lucidez descritiva, e que nos toca na sua generosidade sem pressas, Andando substitui a violência angustiante da ausência pela sua dissolução quotidiana na mesa de jantar. Povoada por conflitos discretamente filmados e por questões nem sempre resolvidas, esta família encontra-se, como todas as outras, a falar da vida, de outras vidas. Esta estética dos sons da cozinha, ou de ecos felizes que se fazem ouvir nos corredores silenciosos da casa, são o conforto de um ambiente familiar, que, apesar de tudo, Kore-eda filma com uma geometria que honra o real, com um rigor plástico que faz justiça ao dia.
A contenção formal, é por isso, evidente e uma condição necessária para se aproximar um mundo fictício a um mundo quase verídico. A câmara só efectua o primeiro movimento cerca de trinta minutos do filme começar e a elipse narrativa é escassa (a história são dois dias e pouco mais), imprimindo-se na tela uma noção essencial do tempo real, oposto ao tempo dramático, esse último povoado com cortes e artifícios para adensar o pathos. Por isso falava-se de ausência de verticalidade, que não é mais do que horizontalidade na trama, na psicologia do próprio filme. E quando essa elipse final surge, nada nos comove mais.
O Pai e a Mãe subindo as escadas, desaparecendo assim do plano, ausentando-se da câmara de filmar, acompanhando a voz do filho, que nos avisa da sua finitude. A tela a negro salta para anos mais tarde (o único e derradeiro movimento narrativo radical do filme), no mesmo cemitério, repetindo-se o mesmo ritual da visita à campa. Depois dessa formidável elegia, a câmara levanta-se até ao horizonte uniforme do céu e do mar, executando um movimento raro na sua já habituada paralisia, como se ela pudesse mirar o destino real da vida, independente agora daquele quotidiano singular que nos tinha imergido: a morte prolonga-se numa repetição infindável e melancólica dos seres.
Se a vida é uma corrida para a morte e se tudo é devir, então Andando torna a corrida um pouco mais lenta, complacente, contemplativa e transfigura a força incontrolável do devir num gerúndio lento e pacífico. Isto é, evacua a violência filosófica de tais termos, não os menosprezando, reformulando-os, porque a vida não pode ser despojada da forma e do sentido como a vivemos. A tradução feliz do título do filme para português conserva justamente essa verdade. Que, apesar dos vivos e dos mortos, haverá sempre morte e vida. A câmara que, no plano final, sorrateiramente deixa os vivos e sobe até ao céu prova que, para lá desses indivíduos com quem rimos e choramos, a vida tem a natureza de um gerúndio eterno, de algo que se fará até ao fim dos nossos próprios dias e que, continuará, a despeito de nós.
É esse a beleza única de um filme poeticamente fugaz como este, singular e colectivo em simultâneo, espelhando muito subtilmente a condição do próprio espectador, preso às imagens serenas e intocáveis da tela, preso ao mundo do cinema.
















