sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Aruitemo Aruitemo

Título Original: Aruitemo Aruitemo
Título em Português: Andando
Realizado por:
Hirokazu Koreeda
Actores:
Hiroshi Abe, You, Yoshio Harada, Ryôga Hayashi, Haruko Kato, Kirin Kiki, Hotaro Nomoto, Yui Natsukawa, Shohei Tanaka, Susumu Terajima
Data:
2008
País de Origem:
Japão
Duração: 114 min.
M/6

Cor, Som









Andando ou a arte do gerúndio

Sem querer justificar, por ora, poder-se-ia atribuir a Andando, filme entre nós estreado, uma capacidade singular de transfigurar a realidade num longo, delicado e silencioso gerúndio. Anteriormente, ao determo-nos sobre o tema fulcral da obra de Hirokazu Kore-eda apontámos a omnipresente e cortante ausência, figurada de várias perspectivas, que minava os afectos dos personagens, catapultando-os numa batalha em que apenas a memória (ou a ausência dela) surgia como solução à angústia. A verdade é que Kore-eda neste Andando não esquece ausências particulares, mas sujeita-as ao crivo de uma longa meditação formal - tão honesta e sensível - reveladora da subtil força do real: um gerúndio eterno, um estar-se-a-fazer infinito.

Por isso se nos apresenta uma narrativa desprovida de verticalidade. Em Andando, apenas existe naturalismo fílmico, a singularidade e a subtileza de gestos, a mímica e um ler-nas-entrelinhas constante, justamente por causa dos diálogos ricamente ambivalentes. A própria ausência nunca esteve tão… presente, pois se a ausência, ela própria, se tem de filmar, aqui é relegada para aparição fantasmagórica, ou seja, o aniversário simbólico da morte do filho mais velho, Junpei, que permite a reunião familiar que iremos assistir. Se bem que essa ausência (a ausência fantasmática do filho) está pairando no ambiente sonâmbulo familiar, ela não toma a violência, nem a intensidade dramática do resto da filmografia de Kore-eda.

Há dois planos em especial que atestam a veracidade do que se disse: o primeiro é relativo ao momento quando a família se prepara para tirar uma fotografia colectiva e a câmara foca insistentemente o altar funerário de Junpei, esquecendo-se dos vivos que percorrem o plano apressada e desfocadamente, como se fosse devolvido ao morto a visão do decorrer das cerimónias, quinze anos após o seu acidente. O segundo corresponde à cena, mais directa, em que a Avó percorre uma borboleta amarela, na expectativa de esta ser o seu defunto filho, procurando-a. É esse olhar ressuscitado, fornecido ao inanimado, que mesmo inconscientemente torna mais presente a ausência mais imediata.

Certamente, e como não podia deixar de ser, esta estética da devolução do olhar rememora o clássico ultra-citado Yasujiro Ozu. Também nesse cinema a câmara de filmar adoptava pontos-de-vista subjectivos para realidades não-subjectivas, como objectos ou edifícios. Da mesma forma, a existência única de diálogos e comportamentos mundanos, no limite do filmável, rememoram os artifícios necessários para a construção da realidade, tão presentes num filme de Ozu, como neste Andando. No entanto, a subtileza movediça dos diálogos e a violência contida num sorriso vazio ou num comentário maliciosamente inocente, relembram bastante mais Mikio Naruse. Porém, deixando de parte as referências cinéfilas (que não são, de todo o modo, motivações), e das quais ainda podíamos incluir a obra de Hou Hsiao Hsien (no que concerne os escassos movimentos de câmara, por exemplo) ou Ken Loach, é imperativo voltar à serenidade apaixonante de Andando.

Filme que nos enreda na sua lucidez descritiva, e que nos toca na sua generosidade sem pressas, Andando substitui a violência angustiante da ausência pela sua dissolução quotidiana na mesa de jantar. Povoada por conflitos discretamente filmados e por questões nem sempre resolvidas, esta família encontra-se, como todas as outras, a falar da vida, de outras vidas. Esta estética dos sons da cozinha, ou de ecos felizes que se fazem ouvir nos corredores silenciosos da casa, são o conforto de um ambiente familiar, que, apesar de tudo, Kore-eda filma com uma geometria que honra o real, com um rigor plástico que faz justiça ao dia.

A contenção formal, é por isso, evidente e uma condição necessária para se aproximar um mundo fictício a um mundo quase verídico. A câmara só efectua o primeiro movimento cerca de trinta minutos do filme começar e a elipse narrativa é escassa (a história são dois dias e pouco mais), imprimindo-se na tela uma noção essencial do tempo real, oposto ao tempo dramático, esse último povoado com cortes e artifícios para adensar o pathos. Por isso falava-se de ausência de verticalidade, que não é mais do que horizontalidade na trama, na psicologia do próprio filme. E quando essa elipse final surge, nada nos comove mais.

O Pai e a Mãe subindo as escadas, desaparecendo assim do plano, ausentando-se da câmara de filmar, acompanhando a voz do filho, que nos avisa da sua finitude. A tela a negro salta para anos mais tarde (o único e derradeiro movimento narrativo radical do filme), no mesmo cemitério, repetindo-se o mesmo ritual da visita à campa. Depois dessa formidável elegia, a câmara levanta-se até ao horizonte uniforme do céu e do mar, executando um movimento raro na sua já habituada paralisia, como se ela pudesse mirar o destino real da vida, independente agora daquele quotidiano singular que nos tinha imergido: a morte prolonga-se numa repetição infindável e melancólica dos seres.

Se a vida é uma corrida para a morte e se tudo é devir, então Andando torna a corrida um pouco mais lenta, complacente, contemplativa e transfigura a força incontrolável do devir num gerúndio lento e pacífico. Isto é, evacua a violência filosófica de tais termos, não os menosprezando, reformulando-os, porque a vida não pode ser despojada da forma e do sentido como a vivemos. A tradução feliz do título do filme para português conserva justamente essa verdade. Que, apesar dos vivos e dos mortos, haverá sempre morte e vida. A câmara que, no plano final, sorrateiramente deixa os vivos e sobe até ao céu prova que, para lá desses indivíduos com quem rimos e choramos, a vida tem a natureza de um gerúndio eterno, de algo que se fará até ao fim dos nossos próprios dias e que, continuará, a despeito de nós.

É esse a beleza única de um filme poeticamente fugaz como este, singular e colectivo em simultâneo, espelhando muito subtilmente a condição do próprio espectador, preso às imagens serenas e intocáveis da tela, preso ao mundo do cinema.


terça-feira, 20 de Outubro de 2009

V for Vendetta

Título Original: V for Vendetta
Título em Português: V de Vingança
Realizado por: James McTeigue
Actores: Hugo Weaving, Natalie Portman, Stephen Rea, Stephen Fry, John Hurt, Tim Pigott-Smith, Rupert Graves, Roger Allam
Data: 2005
País de Origem: Reino Unido/EUA
Duração: 133 min.
M/16Q
Cor, Som








"Remember, remember the 5th of November, the gun powder treason and plot. I know of no reason why the gun powder treason should ever be forgot."

Aproveitando esta frase que marca o filme, começo a minha critica por explicar o que foi a traição e conspiração da pólvora. No ano de 1605 um grupo de conspiradores católicos, insatisfeitos com a situação que o Rei Jaime I criara por beneficiar mais os protestantes e não atribuir direitos iguais entre os mesmos e os católicos, tentaram explodir o parlamento inglês, almejando assim matar o Rei, a sua família e maior parte da aristocracia protestante. O filme assenta nesta traição, transportada para um futuro fictício, mostrando o que pode acontecer quando valores como a liberdade são postos de lado em nome da "segurança" e da "paz". O objectivo da traição é explorado não no sentido das intenções mas sim do fim a que se queria chegar.
V, personagem interpretada por Hugo Weaving, apresenta-se como um revolucionário contra um regime totalitário que se instalou em Inglaterra devido aos grandes problemas que o país enfrentava. A realidade que o filme espelha é preocupante, sendo vivida em moldes um bocado diferentes no passado, e parece que o futuro que espera a Europa e o resto do Mundo não se prevê muito propicio a que as liberdades que hoje tanto preservamos durem. A personagem é em última analise um farol de esperança numa sociedade totalmente controlada e intimidada, uma população que já aceitou a sua condição e que vive a sua rotina diária sem o mínimo desvio com medo das consequências. São seres inertes, amorfos. Ao longo do filme vamos percebendo que este regime foi instalado com base em mentiras e em crimes hediondos provocados pelo próprio Estado para legitimar o seu poder, não deixando também de fazer criticas ao papel da igreja apresentando um padre pedófilo, e verdade seja dita têm-se ouvido falar muito nestes casos.
Mas porquê V de Vingança? V foi levado para uma experiencia genética, tendo sido sujeito a situações que lhe deformaram o corpo. Esta vingança é na realidade, uma vingança pessoal, uma vendetta contra o que lhe foi feito, contra os homens que agora estão no poder. É como que uma dupla vingança, primeiro contra o que sofreu e depois para libertar o país da opressão. A justificação para esta vingança vai ser posta em causa com a personagem de Natalie Portman, sendo que V encontra a sua consciência e ao apaixonar-se vai deixar a decisão de revolução nas mãos dela.
V de Vingança vive muito da maravilhosa interpretação de Hugo Weaving, a maneira como se mexe e como fala adquirem uma áurea mística não sendo preciso sequer ver a sua cara que está tapada por uma máscara com a cara de Guy Fawkes, um dos homens responsáveis pela conspiração de 1605 . Vive também do modo como criaram o esconderijo de V, uma cave recheada de cultura, um abrigo, um grito contra a "anti-cultura". Mas olhando com atenção penso que o filme poderia ter ido um bocado mais longe na critica que faz ao que se vai assistindo diariamente, ao disfarce que se faz sobre a restrição de liberdades. Aborda sem dúvida o tema e em alguns momentos chega a ser perturbante o que está a acontecer a frente dos nossos olhos e não nos apercebemos.

Nota: 4/5

(500) Days Of Summer

Título Original: (500) Days Of Summer
Título em Portugues:
N/A
Realizado Por:
Marc Webb
Actores:
Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Moretz, Matthew Gray Gubler
Data:
2009
País de Origem:
EUA
Duração:
95 min.
M/12

Cor, Som














"This is a story of boy meets girl. I should tell you upfront this is not a love story."

Então porque razão não é uma "love story"?

Na vida de cada um, as experiências que ainda não surgiram são substituídas por histórias que se encontram em livros, filmes e até em músicas. Lemos, vemos, ouvimos, e desperta em nós uma curiosidade em descobrir aquelas vidas, as aventuras, os momentos que vira o rumo das nossas vidas. Foquemos num tópico: o "love story". Sejamos sinceros, aquilo que toda a gente procura, pelo menos, uma vez na vida é o amor concretizado, principalmente quando se é jovem. Para incentivar esses sonhos são quase todos os filmes de comédia romântica que hollywood nos apresenta, em que atingir esse objectivo é o suposto "happy ending". Ficamos agarrados à ideia que temos que encontrar o tal, "the one", por assim dizer, e como os filmes começam com um rapaz e uma rapariga, têm que acabar com o mesmo rapaz e rapariga (razão pela qual o "Slumdog Millionaire" acaba por mergulhar numa teia hollywoodesca, sendo, no fundo, um filme como todos os outros). Felizmente são só "quase" todos os filmes que são assim.

"(500) Days Of Summer" contém, talvez, um dos enredos mais sinceros no mercado cinematográfico. Pode nao ser visto como uma obra-prima, um "clássico" do cinema mundial daqui a vinte anos, mas sem dúvida que mete qualquer pessoa a relembrar dos seus primeiros amores, ou melhor, os seus primeiros desgostos amorosos. A ingenuidade que uma vez se teve e que se perdeu. É disto que este filme se trata.

Dia (488):
Tom (Joseph Gordon-Levitt), personagem central da história, encontra-se sentado num banco de um parque ao lado de Summer (Zooey Deschanel) onde estão de mão dadas. Notamos que Summer tem posto um anel de casamento.

Passa do dia 488 para o dia 1. Pensamos que a partir daqui há-de haver uma cronologia no contar da história. De facto há, só que nao é em dias cronológicos, é na forma como Tom relembra dos dias e dos momentos da sua primeira grande aventura no mundo do amor, no "the one", como a personagem sempre acreditou que iria encontrar. De facto quando nos metemos a pensar em acontecimentos passados, é algo bastante aleatório, confuso. No momento em que Tom vê Summer pela primeira vez, a personagem central coloca em questão se Summer poderá ser "the one". Essa questão só passa a ser uma certeza nos olhos de Tom depois de Summer demonstrar que ambos têm, pelo menos, um gosto semelhante: ambos adoram a banda The Smiths. A personagem principal fica boquiaberto ao se aperceber disto. Ele começa mesmo a acreditar que ela poderá ser a mulher da vida dele. O problema é que Summer nunca viu o mundo da mesma forma, expressando, num dos dias a Tom, que o amor é uma fantasia, que não existe, mas o filme não se trata de Summer, trata-se de Tom e nas suas crenças. Para ele, ela é "the one". Nenhuma outra rapariga o interessa, só Summer: a maneira como os olhos dela brilham, os joelhos redondamente perfeitos, no sorriso único que esboceja, na maneira como morde os lábios antes de falar, aqueles pequenos pormenores que tornam aquela pessoa ainda mais fantástica. Curioso é que esta obra tem também vários pormenores interessantes. Por exemplo, quem dá o primeiro passo na relação entre ambos não é Tom, mas sim Summer. Só mostra a inexperiência que Tom domina na área de abordar as mulheres. Outro é a diferença entre as expectativas que Tom tem em relação a uma festa que Summer organizou e aquilo que a vida real o oferece. Esta cena fabulosa só podia ser mostrada em ecrã dividido, porque é aquilo que lhe está acontecer que lhe faz pensar naquilo que, para ele, deveria ter acontecido. Fabuloso a maneira como mostra o pensamento ingénuo da personagem principal, através destes pormenores.

É importante salientar que "(500) Days Of Summer" não se trata de mostrar as coisas de uma forma objectiva, mas de uma forma subjectiva, do ponto de vista da personagem principal que, se formos a ver, o cinema é isso mesmo. É mostrar um argumento através do ponto de vista do realizador, quer seja ficção, quer seja baseado em factos verídicos, quer seja um documentário. O realizador decide como cada cena deve ser filmada, se é de baixo para cima para mostrar o contraste da personagem com o céu, ou de cima para baixo para mostrar o contraste da personagem com o caminho que está a percorrer, por exemplo. Por outras palavras, aquilo que é transmitido ao público, é através da visão do realizador e este filme é isso. É mostrar a maneira como Tom olha para o amor, a forma como o mesmo relembra dos momentos com Summer, os bons momentos inicialmente, os maus momentos mais tarde, a comparação dos dois, aquilo que ele sentiu e como lhe afectou no final. Por mais estranho que possa parecer, a subjectividade de "(500) Days Of Summer" acaba por ser mais verídico a muitos documentários e a muitos filmes que são baseados em factos verídicos.

Os meus parabéns a Marc Webb por ter conseguido criar uma obra brilhante logo na sua primeira tentativa. O aspecto visual é extremamente colorido nas alturas quando tem que ser e profundamente negro nos momentos mais difíceis da personagem central da obra. O cast nessas alturas é decisivo. Joseph Gordon-Levitt consegue interpretar perfeitamente a inexperiência de um adulto no início da sua viagem, alguém tão ingénuo que é capaz de acreditar no impossível. Zooey Deschanel encanta qualquer membro do público com a sua espontaneidade, apesar de interpretar um papel de uma rapariga que lê o amor como uma mera fantasia. Aliás, o objectivo do filme é mesmo esse, fazer crer que uma rapariga tão indisponível seja a rapariga dos sonhos de Tom. Curiosamente, a certa altura, os dois acabam por mudar completamente de ideias em relação ao amor, acabam mesmo por trocar de lugares. Porém, ainda falta o final para concluir a grande viagem de Tom.

A marca significativa desta obra é o crescimento de Tom, acontecendo lentamente ao longo da película. Não é algo súbito como surge em tantos outros filmes, é ocorrido aos poucos, com o passar do tempo, a base dele vai fortalecendo e o momento em que mete em práctica esse crescimento é a cena final. Se não fosse pelo "ending", o filme não seria intitulado "(500) Days Of Summer". Ora, se não fosse assim, perderia toda a graça e o encanto que este filme oferece.

E é por isto que não se trata de uma "love story".

Nota: 5/5

sábado, 17 de Outubro de 2009

The Descent

Titulo Original: The Descent
Titulo Português: A Descida
Realizado por: Neil Marshall
Actores: Shauna Macdonald, Natalie Jackson Mendoza, Nora-Jane Noone, Alex Reid, Saskia Mulder, MyAnna Buring
Data: 2005
País de Origem: Reino Unido
Duração: 100 mins
M/16
Cor e Som










Apetecia-me ver um filme de terror bom e pedi a um amigo que me aconselhasse. E assim surgiu The Descent, agora um dos meus filmes favoritos. No meio de tanto remake, sequela e prequela dentro do género, este é um filme original que se destaca por mérito próprio. Neil Marshall é o responsável, já tendo sido aclamado pelo seu filme anterior Dog Soldiers. No entanto foi A Descida que foi aclamada pela crítica como "obra prima". E não está longe da verdade. 6 amigas já com alguma experiência na matéria decidem descer uma caverna dita virgem e explorá-la. No entanto, após uma derrocada inesperada que sela totalmente o caminho por onde vieram, e já muitas centenas de metros abaixo do solo, presas e sem qualquer indicação de existência de uma outra saída a sua amizade irá ser posta à prova. Quando vi The Descent não tinha qualquer expectativa do que se ia tratar, apenas sabia que iria envolver a exploração de uma caverna. E durante boa parte do filme realmente é, e o mais interessante é que é um thriller logo desde o primeiro minuto. O desafio de conseguir descer grandes precipícios dentro da caverna e a expectativa criada para o que vai acontecer é só por si inquietante e imersivo. Poder-se-ia considerar esta primeira hora de filme como sendo de aventura.. Mas é depois disto que tudo se torna realmente interessante. Como já disse não fazia ideia do que era para acontecer no filme já que nem tinha lido nada sobre ele, e eis se não quando a já intensa aventura de sobrevivência natural do grupo ganha um novo factor muito mais mortífero e aterrador quando percebem que estão a ser observadas por algo que a inicio não conseguem explicar. Aí todos os outros factores que já nos estavam a assombrar são levados ao extremo: a claustrofobia, o isolamento, silêncio e a possibilidade de ali ficarem para sempre, sendo que agora estão a fugir de criaturas aterrorizantes. Aliás a primeira aparição de uma dessas criaturas é sem dúvida um dos momentos da minha vida onde mais medo senti.
O ingrediente chave que fez deste filme algo tão soberbo foi o realismo em parte devido ao limitado orçamento do realizador britânico. Nada é feito a computador e, embora os cenários subterrâneos utilizados sejam sempre recriações em estúdio, a forma como são apresentados não nos faz duvidar do seu realismo nem por um segundo, e depois o facto de a única iluminação existente ser proveniente das lanternas e neons das raparigas dá uma sensação ainda mais imersiva, e por sua vez acaba por atribuir diversas cores aos cenários cavernosos por onde passam, o que também torna o filme interessante nessa categoria. Falando ainda em realismo, nota máxima para os elogiados/malditos efeitos "gore", que a meu ver são sobretudo necessários. Tudo isto para dizer que o ambiente é perfeito.
O único factor negativo e que me leva a não atribuir nota máxima a The Descent é o facto de por vezes se notar a inexperiência das actrizes que nalguns momentos finais do filme, infelizmente não estão tão convincentes como se pretendia, notando-se também algum exagero quando as heroínas se tornam quase "guerreiras". O outro pormenor negativo é o facto do pouco tempo do filme não conseguir explorar na perfeição todas as 6 personagens. A mais importante dessas relações passadas entre as personagens apenas é entendível se for prestada a devida atenção ao inicio do filme, o que é aplaudivel ao não tomar o espectador por burro. No entanto 3 das 6 raparigas, devido aos poucos traços físicos que as diferenciam e mesmo de personalidade fazem com que se confundam durante grande parte da película. É necessária mesmo muita atenção para se entender tudo o que está subentendido nas acções das personagens ao longo do filme, o que não deixa de ser bom mas talvez desnecessário. O próprio final deixa várias interpretações em aberto para o espectador.
Concluindo, este é um filme visualmente deslumbrante e sobretudo sensacionista. Faltava apenas um pouco de maior experiência nas actrizes, o que é perfeitamente desculpável pois conseguem atingir aquilo que é pretendido. Um clássico do thriller de terror moderno.

Nota: 4/5

Public Enemies

Titulo Original: Public Enemies
Titulo Português: Inimigos Públicos
Realizado por: Michael Mann
Actores: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Stephen Graham
Data: 2009
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 140 mins
M/12Q
Cor e Som








Foi com Collateral que Michael Mann iniciou uma revolução no seu próprio cinema, e introduziu um conceito de filme noir ressuscitado que a meu ver não resultou da melhor forma. Dois anos mais tarde reinventa Miami Vice de forma excepcional que dificilmente se explica. E aí abre caminho para a sua obra prima, Public Enemies, que junta o filme noir ao policial imagético de Miami Vice, acrescentando várias coisas. A primeira delas é Johnny Depp, que já ganhou estatudo de caracteristica de filme só por si, ou "coisa" como disse anteriormente. Sempre desconfiei um pouco deste matreiro, mas Public Enemies não me deixou margem para dúvidas. Principalmente quando o colocam ao lado de Christian Bale, meu actor de eleição, percebe-se o porquê de Depp ser um dos actores mais badalados da actualidade. Mas também talvez por ser dado a Bale um papel de desenvolvimento muito menor... Ora estamos na década de 30, em plena grande depressão, e se se quiser resumir o conceito bastará dizer que esta é a ascensão social dum criminoso, John Dillinger, que assalta bancos. Os bancos culpados pela crise americana. No entanto esta temática nunca é abordada directamente, sendo este espirito da película mais subentendível que propriamente exposto. John Dillinger é um herói.
O que torna Public Enemies o único candidato capaz de rivalizar com Inglorious Basterds (até agora) é o seu passo calmo e sóbrio, nunca pondo de parte as cenas de acção necessárias que nem sempre são complexas mas são sempre de uma intensidade preponderante, lembrando The Departed de Scorcese. Há também uma grande aposta na fotografia, lição aprendida com Miami Vice, demonstrando ambientes simples manipulados visualmente de forma a encher subrepticiamente o espectador. Christian Bale é o líder policial que persegue Johnny Depp, e mais uma vez, factor curioso, traz-nos um novo sotaque desta vez vincadamente sulista, uma interpretação muito boa, embora sem grande margem de manobra quando comparado com Depp por motivos de personagem. Uma banda sonora e ritmo expositivo tradicional e uma capacidade de prender o espectador pela sua trama envolvente que vai sempre aumentando de intensidade. Por vezes lembra There Will Be Blood nesse aspecto, embora Public Enemies não chegue a ser tão extremista quando a esse pouco uso de artifícios modernos na imagem, salvo uma ou outra câmara lenta necessária.
Public Enemies é talvez o filme do ano, e na minha opinião pessoal é mesmo superior a Inglorious Basterds.

Nota: 4/5

Outras Notas:
Pedro Silva: 4/5
Pedro Mourão-Ferreira: 4/5

domingo, 11 de Outubro de 2009

Resident Evil: Extinction

Título Original: Resident Evil: Extinction
Título em Português: Resident Evil 3: A Extinção
Realizado por: Russell Mulcahy
Actores: Milla Jovovich, Oded Fehr, Ali Carter, Iain Glen, Ashanti, Mike Epps, Jason O’Mara, Matthew Marsden
Data: 2007
País de Origem: EUA
Duração: 90min.
M/16
Cor, Som









Com o lançamento do quinto jogo da saga Resident Evil (Biohazard), pensei que seria interessante analisar a última entrega dos filmes com base na mesma saga. Como é possível pegar numa história como a de Resident Evil e passar para um filme que faz um elogio à mediocridade? Milla Jovovich continua com o seu papel de Alice, a maior fantochada de todos os tempos, o maior gozo que se pode fazer a uma história destas. Não tirando o mérito que Milla tem, e confesso que até aprecio alguns filmes dela, isto é uma palhaçada que vai desde a invenção de personagens até ao facto de não seguir a história ou ser minimamente fiel à mesma.
Neste terceiro filme, o vírus T está totalmente disseminado pelo mundo, onde apenas alguns sobreviventes restam, e onde Claire Redfield, juntamente com Carlos Olivera conduz um grupo de sobreviventes pelas desoladas estradas do continente Americano. Mas para melhor percebemos o porquê desta desgraça de produção cinematográfica voltamos atrás, mais concretamente ao primeiro filme, que é o que ainda se aproxima mais do jogo ou então o que tenta pelo menos captar o espírito do jogo, aquela sensação de que não existe nenhum sitio para fugir e os planos da câmara são estrategicamente pensados para dar esta sensação de claustrofobia. O segundo filme serve como uma introdução para este terceiro pelo facto de tentar já abranger uma faixa etária maior e tentar uma maior projecção, mas sinceramente o filme não passa de umas quantas acrobacias de Alice e Olivera que tentam em vão esconder as enormes deficiências do filme. Nem mesmo a entrada de Jill Valentine conseguiu dar um empurrão ao filme ou pelo menos um maior sentido de responsabilidade para com a história. Em relação ao primeiro, este terceiro filme está num nível muito diferente, não de qualidade de realização, mas sim de meios e tenta uma maior comercialização. Tenta abranger um público maior mas sinceramente só conseguiram afastar as pessoas que ainda tinham esperança de ver algo digno.
A realidade é que ainda se espera um verdadeiro filme de Resident Evil, um verdadeiro elogio ao jogo e não uma simples mediocridade que serve para encher os bolsos aos amigos e para manter as relações de primalhada seguras. O que seria verdadeiramente interessante, era um filme do primeiro jogo para finalmente termos algo digno de ser visto, não uma reles produção mas sim algo serio com o compromisso e responsabilidade de não poder deixar ficar mal uma história com demasiada importância e estatuto.

Nota: 0/5


Outras Notas :
David Bernardino : 0/5
Pedro Mourão-Ferreira: 1/5

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

District 9

Título Original: District 9
Título em Português: Distrito 9
Realizado por: Neill Blomkamp
Actores: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, John Summer, William Allen Young, Greg Melvill-Smith, Nick Blake
Data: 2009
País de Origem: EUA/ África do Sul
Duração: 112 min.
M/16Q
Cor, Som









District 9 para muitos pode ser uma mistura de Rec/ Cloverfield/ documentário National Geographic, mas totalmente o oposto, é filmado no género de documentário mas com algumas nuances que o distinguem. District 9 é um estilo novo, é uma lufada de ar fresco, e posso dizer que este ano já foi a segunda, começando com o divino Inglorious Basterds e passando para este. Não é uma cópia do que já se fez, o que está aqui presente é uma ideia genuinamente nova, uma visão explorada da melhor forma por Neill Blomkamp e Peter Jackson. Já se tinha tentado em vão criar uma história minimamente credível sobre os nossos amigos do espaço, mas é com este filme que se inicia agora algo realmente sério. District 9 é antes de mais uma critica à sociedade e não um confronto imediato entre o "homenzinho verde" e o valoroso, o virtuoso Ser Humano. Mas para perceber isto temos que começar pelo inicio. Em 1990 uma monumental nave extra-terrestre avaria-se sobre a cidade de Joanesburgo e fica lá 20 anos, sendo que em 2010 uma empresa multi-nacional de armas tenta expulsar os "Prawns", nome pelo qual foram apelidados devido à sua forma se parecer como a de um camarão. O que no inicio era uma zona para reter os extra-terrestres passou a ser um bairro degradado tendo todos os problemas inerentes a este tipo de situação social. Esta equipa era liderada por Wikus van der Merwe que acaba por ser infectado e vai ter que com mais dois extra-terrestres lutar pela sua sobrevivência.
Este Distrito apresenta tudo o que se encontra num bairro degradado, mais exactamente numa favela: tráfico de armas, neste caso não de substâncias mas de comida, prostituição, condições precárias e extrema violência. Mas também assistimos a um novo tipo de "racismo" se é que se pode assim chamar, os humanos começam a revoltar-se contra estes novos visitantes e a odiar, o que vai levar com que a empresa multi-nacional os tente mudar para uma zona mais fortemente vigiada. Esta mudança é ao bom estilo actual, a promessa vem sempre com uma grande contra partida e os extra-terrestres são literalmente obrigados a assinar os papeis de "alteração de residência". Isto leva a abusos de força, e até a mortes.Wikus van der Merwe no meio disto tudo acaba por fugir também devido à sua infecção, tendo juntamente com o seu amigo que dá pelo nome de Cristopher descoberto que eram realizadas experiencias genéticas aos extra-terrestres. Como se pode ver todos os defeitos humanos levam a que no final se levante uma questão: será que devido a toda a nossa prepotência e arrogância, a toda a nossa ideia de que somos os únicos e que temos o direito de não respeitar nada a não ser a nossa própria natureza distorcida por uma sociedade altamente corrompida levará a que quando os extra-terrestres voltarem, se vinguem? Por enquanto é tudo ficção, mas não será motivo para pensarmos nisso?
District 9 foi realizado apenas com 30 milhões de dólares e apresenta uma qualidade técnica notável e deslumbrante com um estilo desenvolvido também pelos próprios actores, que dão aquele ar de documentário a todo o filme que realmente só poderia ser assim filmado, correndo o risco de não passar a sua mensagem. A critica politica e social é evidente e está muito bem retratada, a constante desigualdade e intolerância não podem fazer parte da sociedade actual, correndo o risco de qualquer dia acontecer o pior. A par de Inglorious Basterds, estamos perante os melhores filmes do ano e percebemos que só através de filmes independentes é que se pode fazer passar uma critica porque se não for assim Hollywood corta os dinheirinhos e como maior parte dos realizadores é muito cheio de si não vão querer tal coisa, entregando-se a uma companhia mentirosa. Não convém estas realidades serem expostas, principalmente se vindas da floresta sagrada. A resposta está portanto no cinema independente que não se entrega aos lobbies e às pressões.

Nota: 4/5

Outras Notas:
David Bernardino: 3/5

domingo, 30 de Agosto de 2009

Inglorious Basterds

Título Original: Inglorious Basterds
Título em Português: Sacanas sem Lei
Realizado por: Quentin Tarantino
Actores: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Cristoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Bruhl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J Novac, Omar Doom
Data: 2009
País de Origem: EUA/Alemanha
Duração: 153 min.
M/16Q
Cor, Som








Os Nazis morreram, e fomos nós que os matámos.

Algo de (ainda) singular edifica o sonho cinéfilo de Quentin Tarantino, percorrendo-o até às mais distantes extremidades. Inglorious Basterds é, antes do mais, a prova que o exercício de estilo radical em Death Proof se vinha fervilhando em criatividade futura, cujo coração reside (e residiu sempre) na menção honrosa e nas citações abusivas, estas últimas, aliás, "condições necessárias ao discurso" como muito boa gente o tem dito. Assim, Inglorious é Tarantino como o conhecemos desde Reservoir Dogs a Kill Bill, mas não só. Representa, por assim dizer, um apuramento completo das premissas do entretenimento, ou seja, é como cinema que o devemos encarar do princípio ao fim (por muito que nos custe, mas tal é o solavanco imprevisto desta destilação cinematográfica).
Para além dos possíveis sentidos que a narrativa toma (como se a fragmentação diegética de um Pulp Fiction se espelhasse, mais uma vez, nas inúmeras reviravoltas deste Inglorious), o que se retira de mais fulcral nesta insana e irreal aventura é a sensação inócua que tudo não passa de um filme, e de um filme soberbamente desafiante. Quanto baste, para dar-se ao luxo de jogar com o nosso inconsciente colectivo de maneira tão subtil e ininteligível, a tal ponto que os Nazis são inexplicavelmente "maus" e os Basterds injustificavelmente "bons", apesar da humanidade caricatural que percorre os elementos do Terceiro Reich e da boçalidade, a roçar o cómico, dos dissidentes americano-judeus (poder-se-ia mesmo dizer que dentro do ecrã, mais humanos são os Nazis do que os Sacanas). Lançando as peças do mais clássico dos dípticos morais, dando-o como adquirido, Tarantino subverte as representações éticas de cada espectador, remetendo todo o jogo entretido para uma vingança aparentemente urgente: o extermínio sumário dos porcos nacionais-socialistas, o inimigo mais intocável historicamente, levada a cabo por uma humanidade pós-moderna, anti-nazi por memória vaga, que se entretém justamente com aquele mesmo tipo de violência selvagem que supostamente deveria recusar (porque a civilização do "bem" é, afinal, a da razão).
Deste modo, é Tarantino consagrado como o cineasta americano da vingança, por excelência. Porque se a vendetta até Inglorious Basterds se figurava dentro (e só) dentro do ecrã - ela era subjectiva e reduzia-se aos intentos da própria narrativa, um exemplo: Kill Bill - , aqui assume-se inteiramente fora dele, transcende-se. A carnificina nazi alimenta, assim, o imaginário, apesar de tudo, cruel do espectador que contempla, não personagens reais e autênticas, mas símbolos colectivos no caminho para a aniquilação inexorável. De todos os modos e sobre a última cena, falou-se de justiça cinematográfica e poética, mas jamais ela nos surge de maneira necessária: a sua própria criação é uma farsa de entretenimento. Que essa justiça seja , paradoxalmente, irracional e louca, anacrónica e injusta, baseada numa vingança imaginária, sem lugar, sem tempo e sem destino, uma vingança de Cinema, justamente. Filme por isso mesmo e felizmente, condenado à não-militância política, Inglorious alarga até às últimas consequências a História Mundial, apagando a sua tragédia patente, reduzindo-a apenas ao conflito de "maus" e "bons". (Como aliás quase todo o cinema americano o faz, só que não com este alcance quase absurdo, muito ao modo da desconstrução Death Proof).
É inquestionável, portanto, a enorme capacidade meta-cinéfila de um cineasta que se parece dedicar à sacralização integral da história da sétima arte, usando-a mais uma vez, experimentando as suas capacidades de reciclagem no limite do imaginável, sem nunca, todavia, perder a coerência estética e temática. No entanto, é no carácter estritamente bélico que Inglorious Basterds encontra o seu lugar no panteão dos filmes cruéis e exibicionistas por puro espectáculo. Não foram apenas os Ingleses, nem os Americanos, nem os Alemães que mataram os Nazis, mas nós, público, público orgulhosamente indigente, que sorrimos ou gargalhamos diante a sua morte brutal, inglória e fantasmagórica. Fazemos parte desse crime cinematográfico, regozijando. Os Nazis morreram, e fomos nós que os matámos.

Nota: 4/5

Outras Notas:
RMC: 4/5
Pedro Silva: 4/5
David Bernardino: 4/5
Pedro Mourão-Ferreira: 5/5

terça-feira, 11 de Agosto de 2009

Outpost

Título Original: Outpost
Título em Português: Outpost - Exército Fantasma
Realizado por: Steve Barker
Actores: Ray Stevenson, Julian Wadham, Richard Brake, Paul Blair, Brett Fancy, Enoch Frost, Julian Rivett, Michael Smiley, Johnny Meres
Data: 2008
País de Origem: USA
Duração: 86 min.
M18
Cor, Som









Durante o regime nazi foram conduzidas experiências cujo seu teor é tão repugnante que custa a acreditar. O regime de Hitler investiu grande parte do seu tempo na pesquisa do oculto, do paranormal, entrando em “grandes cruzadas” arqueológicas com o objectivo de tentar criar o exército perfeito. Outpost pega numa dessas pesquisas/experiências e em mais 7 mercenários, mistura tudo dentro de um bunker secreto da segunda guerra mundial e dá-nos como produto final um filme interessante mas sobretudo consistente e poderoso. Não tem um grande orçamento, quer dizer, nem parece ter um orçamento de todo, visto jogar com as típicas fórmulas do cinema de terror; escuro, pessoas fechadas num sítio sem poderem sair, aberrações, música muito bem conjugada com as cenas e este acima dos outros tem o elemento nazi que só por si já cria aquele mal-estar. Passando ao filme, como já referi a história prende-se com a experiência conhecida por “teoria do campo unificado” que passaria por juntar 4 forças sendo elas: força nuclear forte e fraca, electromagnética e gravitacional (trailer do filme).
Um cientista norte-americano contrata um ex-marine, interpretado por o actor da premiada serie Rome, Ray Stevenson, com o objectivo de juntar uma equipa para o proteger, tendo a missão apenas 48horas sendo bem paga e aparentemente não apresentar nenhum risco de maior. Ao chegarem ao bunker apercebem-se que estão a lidar com algo nunca visto, descobrindo um sobrevivente no meio de uma pilha de corpos. À medida que se vão apercebendo que 48h não chegam, tomam noção do tipo de experiencias que ali eram levadas a cabo, e que o inimigo que combatem não era como muitos que enfrentaram antes de carne e osso, eram os soldados nazis utilizados como cobaias que já estão mortos e podem viajar através do espaço, materializando-se apenas quando quiserem; percebemos o objectivo através de um vídeo de propaganda nazi que pode ser em parte visto no trailer do filme.
Toda a acção é passada ou no interior do claustrofóbico bunker ou no exterior sendo que é igualmente uma área muito reduzida. Enquanto se tentam defender deste novo inimigo, alguns mercenários desaparecem misteriosamente durante os combates, até que finalmente descobrem a solução juntamente com o cientista, revelando aqui o propósito da sua visita, porque na realidade a equipa contratada não se tinha apercebido ainda do objectivo, que se tornou sádico, desta missão. Tinham que activar a máquina que lá estava e servia como um contra-peso, uma contra-medida o que lhes atribuia aquele poder, também os podia controlar, e esta era a única forma de conseguirem sair de lá. O final está bem arranjado, e conseguimos até soltar um riso por percebermos o que durante o filme é preceptivel so que agora temos realmente essa noção, acaba como começa.
Como se pode matar algo que já está morto?
A realização está muito bem conseguida, jogando com estes elementos todos muito bem, desde a caracterização dos soldados nazis, à utilização muito bem-feita do espaço, das luzes e dos diálogos que em si estão muito bem estruturados para um filme de tal natureza. Mas para um filme de terror ter aquela sensação final, precisa de uma banda sonora boa, e neste campo não falha, estando arranjada com muita mestria. As partes dos combates em que os soldados surgem no meio da floresta por detrás de um clarão e avançam impunentemente está digna de ser referida. Os actores cumprem muito bem, surpreendentemente bem o seu papel, sendo que nunca passam aquele ar de “bad ass” americano que mata tudo e ganha guerras sozinho, afinal como poderia alguem combater tal exército se este não pode ser morto. Mas atenção não rotulo este filme como só sendo de terror é acção/terror, sendo que esta pequena diferença altera um bocado o conceito, não estamos na presença de um Exorcista ou de um REC mas sim de algo diferente e que merece reconhecimento. Apesar da nota, este filme merece e deve ser visto.

Nota:2/5

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

The Curious Case of Benjamin Button

Título Original: The Curious Case of Benjamin Button
Título em Português: O Curioso Caso de Benjamin Button
Realizado por: David Fincher
Actores: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Julia Ormond, Jason Flemyng, Mahershalalhashbaz Ali, Elias Koteas, Jared Harris
Data: 2008
País de Origem: EUA
Duração: 166 min.
M12Q
Cor, Som







Tal como a história do filme, os direitos de produção e a escolha dos actores principais foi complicada e longa. Começa na década de 70 quando Ray Stark comprou os direitos da história e pretendia que fosse Jack Nicholson o escolhido para o papel de Benjamin, mais tarde em 1990 seria a vez de Spielberg comprar os direitos e escolher o “senhor cientologia”, Tom Cruise, para o papel principal. Oito anos depois Ron Howard foi escolhido para realizar o filme com John travolta no papel principal, mas acabou por ser David Fincher em 2005 a ser o designado para realizar o filme, tendo Brad Pitt acabado por ser eleito. Só referir que Rachel Weisz foi a primeira opção para a personagem que veio a ser interpretada por Cate Blanchett.
Tal como nos filmes de Tim Burton, este é um daqueles filmes que vive muito da capacidade que cada um tem para imaginar um mundo completamente diferente e fantástico, um mundo onde o impossível parece ser uma constante, onde a fantasia parece estar presente em cada pedaço de ar, em cada pedaço da nossa natureza. David Fincher, (Alien3, Se7ven, Fight Club, Panic Room e Zodiac), conseguiu fazer com este filme, o que um Spielberg e um Ron Howard não eram capazes, tornou-o numa história sem caprichos do realizador e sem toques de pretensiosismo.
A história do filme, é contada através da leitura de um diário por parte de uma mulher que está no hospital ao lado da sua mãe que está a morrer.
A história de Benjamin começa no final da primeira guerra mundial, um bebé que nasce com todas as características de um idoso de 80 anos, e que estaria destinado a morrer. O seu crescimento é feito ao contrário, vai ficando mais novo, e vemos um rapaz de 7 anos preso num corpo velho a brincar, mas ao mesmo tempo a familiarizar-se com a morte, com o sentimento de perda e com a estranha sensação de curiosidade típica de um “jovem” da sua idade. Lidar com algo tão familiar, torna-se cada vez mais pesado, e com a perspectiva numa fase mais avançada da história Benjamin abandona a sua família e vai viajar, para voltar um adolescente e voltando outra vez mais tarde uma “criança que não se lembra de quem foi, mas que tem a noção que teve uma longa vida”. Todos sabemos que Benjamin irá morrer novo, mas só tomamos essa consciência quando ele é mesmo uma criança, porque estamos tão fascinados com o seu crescimento “ao contrário” que esta ideia só nos atinge no final e de uma forma brusca quando vemos uma Daisy velha a tomar conta de um Benjamin criança. De uma forma tão brusca porque, apesar de ser tudo fruto da infinita criatividade da mente humana, percebemos ou pelo menos tentamos perceber o estranho e o complexo que será para alguém viver tudo no sentido oposto ao nosso. O final apesar de não fugir muito ao que se espera está bem conseguindo, terminando a história de uma forma inteligente, e que de outra maneira poderia ser um bocado saloia e desnecessária.
Para esta história ser de facto fantástica precisava de uma grande dedicação de todos e foi isso que aconteceu, começando pelos efeitos especiais e pela maquilhagem que estavam soberbos, até ao tempo que Brad Pitt passou no estúdio sentando num banco a fazer expressões faciais para tornar o velho Benjamin credível. Foi sem dúvida um dos pontos fortes do filme, juntando a isto a cooperação com a Levis para aprofundar a qualidade do guarda-roupa reproduzindo fielmente a roupa da época. A nível de música, a banda sonora, parece-me bastante enquadrada estando sempre à altura das situações, tal como a fotografia que está brilhante. E muito disso vive este filme de enorme qualidade de fotografia e de caracterização.
Mas nem tudo é um mar de rosas, Benjamin Button tem o seu ponto fraco, a enormidade de horas que o filme tem, e que pode tornar algo monótona a evolução da história. Apesar do que se possa dizer, penso que o facto de ser o espectador a ter que fazer a conta das idades, é que mantém a mística do filme também intacta. Brad Pitt mais uma vez interpreta um papel como nos habitou, não sendo demasiado overacting, utilizando toda a experiencia que adquiriu e o facto de ter já trabalhado com David Fincher ajudou neste aspecto.
Considero que mais uma vez a Academia, só olhou para o toquezinho no coração, sendo Slumdog Millionaire o grande vencedor, com actuações medíocres e com uma história fantoche. Sem tirar mérito ao grande realizador Danny Boyle, Slumdog Millionaire, e atrevo-me a dizer, é uma ilusão de qualidade, que se esconde por detrás de uma historiazita que pretende ter tiques de grandeza e de pretensiosismo, que Hollywood tanto adora. Serviu para a América mostrar com toda a sua hipocrisia que se preocupa com problemas sociais. Ao contrário de Slumdog, Benjamin Button é um balão cheio de ar. POUPEM-NOS!

Nota:4/5

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

The Strangers

Titulo Original: The Strangers
Titulo Português: Os Estranhos
Realizado por: Bryan Bertino
Actores: Liv Tyler, Scott Speedman
Data: 2008
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 85 mins
M/16
Cor e Som









Na mesma linha de Vacancy, The Strangers é um filme de terror que pega numa premissa não original, mas que a aborda duma forma, aí sim, original. A história, quase toda contada em tempo real, é a dos namorados Kristen Mckay (Liv Tyler) e James Hoyt (Scott Speedman) que chegam à casa de campo da familia Hoyt, sozinhos, após virem de um casamento abençoado com bastante bebida entre outros acontecimentos. Ao chegarem a casa começam a ser aterrorizados por um grupo de gente mascarada. E é só isso, como disse inicialmente, a premissa não original e sobretudo não complexa do filme.
A forma como é apresentado, esse sim, é o ponto alto. The Strangers é um filme aterrorizante pois vai contruindo a tensão com tempo. Não tem pressas nem recorree ao truque do susto fácil, não cai em clichés do filme de terror, e mais importante ainda, não os tenta combater de forma foleira.
The Strangers é um filme lento, criticado até pelos adeptos da pipoca como sendo um filme aborrecido. É raro haver música, é sobretudo silencioso, a música só surge quando é tocada no próprio gira-discos da casa à excepção daqueles sons desordenados que por vezes se ouvem num filme do género. Outra crítica dos adeptos da pipoca é a do filme não ter nexo nem objectivo. A verdade é que The Strangers não tem clímax, ou se tem ele não leva o espectador a pular de emoção. Como já referi o terror vai-se construindo e transformando num sentimento de incómodo, "incomoda" o espectador não ver o que se passa além da personagem onde a acção está focada, "incomoda" particularmente quando as personagens se separam e apenas vemos a acção através da perspectiva de apenas uma (Kristen acaba por ser a personagem central, sendo esse o único cliché onde Bertino acaba por cair - o da personagem principal dos filmes de terror ser uma mulher, sentimento de impotência. Basta ver quando James está presente, como nos sentimos muito mais reconfortados). As cores do filme, mantendo uma palete amarelo torrado também ajuda ao desconforto dum ominoso só superado pela própria figura dos strangers, como aliás basta olhar para o cartaz.
Debruçando-me agora noutro aspecto, esta é a primeira incursão de Bryan Bertino como realizador, e para primeira experiência palmas, muitas palmas, o próximo filme Alone já está agendado para 2011.
The Strangers é um thriller de terror, de relativo baixo orçamento (apenas dois actores com relevo, ambos longe de serem superstars, um único cenário e nenhum efeito especial, apenas alguma maquilhagem). Felizmente ainda se fazem bons filmes de terror em 2009. Já tinha saudades.

Nota: 3/5

sábado, 2 de Maio de 2009

Naruto

Título Original: Naruto
Título em Português: Naruto
Baseado no manga de: Masashi Kishimoto
Actores: Junko Takeuchi ,Noriaki Sugiyama, Chie Nakamura ,Kazuhiko Inoue, Hōchū Ōtsuka, Kujira, Masako Katsuki
Data: 2002
País de Origem: Japão
Duração: 25 minutos (aprox)
M/12Q
Cor, Som


Posso começar por referir animes como Bleach, Full Metal Alchimist, One Piece ou até mesmo Death Note como grandes obras de arte que revolucionaram desde o tempo de Son Goku e Tsubasa o género. Mas um em particular atingiu o estrelato de uma forma tão impressionante que se tornou um sucesso mundial como à muito não se via, dá pelo nome de Naruto; da autoria de Masashi Kishimoto estreou-se, no formato manga em 1997 e recebeu criticas muito positivas, o que levou à sua adaptação para anime no ano de 2002. Corria o ano 2004, quando tomei conhecimento desta serie e desde então que não mais deixei de seguir.

Uzamaki Naruto, é um rapaz de 12 anos com um sonho muito peculiar, pretende ser Hokage, que significa ser chefe da aldeia e o ninja que supostamente é o mais forte, contando para isso com uma enorme força de vontade que compensa alguma falta de aptidão para ser ninja. O seu destino ficou traçado no momento em que uma raposa de nove caudas, umas das bestas lendárias, atacou Konoha (a aldeia de Naruto) e o Quarto Hokage aprisionou-a dentro dele. A aldeia olhava Naruto com desprezo durante toda a sua infância, o que motiva a sua entrada para a academia onde poderia vir a dar os primeiros passos para finalmente realizar o seu sonho e ser reconhecido e respeitado por todos. A sua passagem por a academia é marcada pelas más notas e pelas constantes brincadeiras parvas que tem, mas com a ajuda do seu professor Umino Iruka consegue acaba a academia tornando-se genin (o nível mais baixo do rank ninja, tirando que a academia é uma preparação), entrando assim para a equipa 7 onde vai encontrar o seu destino. Esta equipa liderada por talentoso e mítico jounin Hatake Kakashi, conta com a presença de Haruno Sakura e Uchiha Sasuke, sendo este a par do irmão os últimos membros do clã Uchiha. O tão renegado rapaz começa a sua aventura que o leva por caminhos nunca antes caminhados e que o leva finalmente a fazer amigos que começam a respeitar e a admirar a sua força de vontade e a sua capacidade de se sacrificar por os outros. Nara Shikamaru, Yamanaka Ino, Akimichi Chouji, Hyuuga Hinata, Inuzuka Kiba, Aburame Shino, Rock Lee, Hyuuga Neji, Tenten, Gaara, Kankurou, Temari compõem as outras equipas além da de Naruto. Apesar da rivalidade existente, os laços de amizade vão-se criando e fortalecendo com as diversas missões. Para além destes, Naruto pode contar com Jiraya e Tsunade, os dois dos três lendários Sanins. E é com o terceiro Sanin que a história de Naruto é projectada para um enredo que vai perdurar até Naruto Shippudden. Orochimaru, o terceiro sanin, pretende apoderar-se do corpo de Uchiha Sasuke, convencendo este a juntar-se a ele com intuito de o treinar, para futuramente conseguir o seu objectivo.

Esta serie de Naruto baseia-se essencialmente na busca que Naruto faz por Sasuke, mostrando uma temática muito recorrente, as ligações de amizade. È uma temática extremamente explorada e Naruto refere diversas vezes que quando gostamos de alguém temos que fazer tudo por essa pessoa. A par desta temática outras como a força de vontade, o espírito de sacrifício e até mesmo os afectos amorosos são explorados com algum cuidado. A par com a critica efectuada neste blog sobre o Dragon Ball e sobre Captain Tsubasa, estes temas são sempre os pontos centrais das histórias, tentando transmitir uma moralidade que à muito parece perdida. Como exemplo, situações em que Naruto, devido à sua pequena mas intensa experiência de vida, ensina aos outros o importante que é ultrapassar os obstáculos colocados pela sociedade, tendo que lutar sempre pelos nossos sonhos, e mostrando o poder que amizade desempenha nessa jornada.

A nível de desenho, Naruto apresenta uma qualidade impressionante, nunca parecendo lento, nem mesmo nas cenas de batalha frenéticas com imensos efeitos visuais. Aproveitando as deixas, as cenas de batalha estão muito bem conseguidas, sendo que alguns casos são capazes de nos deixar de boca aberta. A banda sonora desempenha um papel fundamental, apresentando uma qualidade soberba trazendo-nos músicas como “Go” ou mais conhecida por “Figthing Dreamers”, a música que acompanha Kakashi que nos transmite uma sensação de relaxamento e de “deixa andar” típica do personagem, ou até mesmo a música de Rock Lee que espelha toda a energia que é transmitida pelo rapaz de sobrancelhas grandes. Todas as personagens têm as suas características muito específicas, nunca nos deixando desiludidos, transmitindo os problemas típicos dos jovens. Em alguns casos apresentam-se com tendências estranhas, noutros casos podem até ser irritantes devido a uma falta de atitude. Mas no geral são muito completas, e sobretudo aprendem com os seus erros.

O problema de Naruto passa essencialmente por duas fases: primeira o extenso leque de episódios “filler” que estragam um bocado a dinâmica da história e por vezes não têm sentido e das piadas que apesar de desempenharem um papel importante, por vezes são demasiado exageradas influenciando negativamente um bocado uma sequência histórica e retirando até algum sentido de moralidade que a situação poderia transmitir. Naruto continua com Naruto Shippudden, mas deixo isso para outra critica, visto a história ser totalmente diferente, e ter evoluído muito positivamente corrigindo alguns erros do passado.

Nota : 5/5

Outras Notas:
David Bernardino: 3/5
Pedro Mourão-Ferreira: 3/5