sábado, 23 de fevereiro de 2013

Django Unchained

Título Original: Django Unchained
Título Português: Django Libertado
Realizado por: Quentin Tarantino
Actores: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 165 mins
M/16Q
Cor e Som












Tendo consciência da extensão da crítica que se segue, penso que este é um daqueles poucos casos em que se justifica. Sempre que acabamos de ver um novo filme de Tarantino fica a ideia de que "este sim, é o melhor filme dele!". Por muito arrogante e pretenso intelectual que o homem pretenda ser (e é!), no que toca a realizar temos que lhe fazer a devida vénia, pois o produto final é, de todas as vezes, soberbo.
Tarantino tem vindo a amadurecer. Em Inglorious Basterds apresentou-nos uma estrutura de cinema muito clássica, longe da alarvidade (também ela fantástica, atenção) de Death Proof, da simplicidade de Reservoir Dogs, da acção de Kill Bill e da estrutura de vários quadros paralelos de Pulp Fiction. Django Unchained segue essa estrutura clássica, desta vez em formato western. No entanto, apesar da estrutura ser clássica há aqui um sentido de renovação que deixa água na boca. Falo por exemplo, da temática do racismo, aqui cruamente explorada, da banda sonora que mistura antigo e moderno (Requiem de Verdi, tema do Django original de 1966 e temas de hip hop contemporâneo), da forma como as cenas são filmadas (os zoom ins bruscos típicos de filmes de série B ao estilo de Death Proof), etc... No fundo é um western renovado (um cowboy de raça negra é algo nunca antes visto), tal como Death Proof era um série Z renovado. 
Este Django Unchained tem muito por onde pegar. De facto, como apontam alguns críticos que guardam rancor à obra de Quentin Tarantino, sendo que alguns até elegem Jackie Brown como o último grande filme ou mesmo o melhor do realizador, o que deve ser decerto uma piada, Django não é de todo uma desculpa para Tarantino espalhar carnificina e alarvidade pelas belas paisagens do Oeste selvagem, e a autenticidade dos diálogos que nos deliciam desde Reservoir Dogs estão longe de estar perdidos. Arriscaria até dizer que nunca estiveram tão bons. Django encaixa cenas e diálogos, como se de um livro separado por capítulos se tratasse. Tudo está tão bem colocado que nem a "economia" de Zero Dark Thirty consegue vencer. E melhor que tudo estar perfeitamente colocado, é tudo estar perfeitamente personalizado. Nenhuma fala, emoção, plano ou som é deixado ao acaso: tudo tem dedo do realizador que, não obstante, deixa os seus actores excederem-se no bom sentido. Relembremos o diálogo de confronto entre DiCaprio, Waltz e Foxx onde o primeiro se corta ao dar um murro na mesa e toma improvisadamente a decisão de continuar a cena, a sua "representação", naquela que se virá a tornar uma das cenas de antologia da obra de Tarantino.
Django Unchained é audacioso, não há dúvida, talvez por isso custe ainda à Academia e outras organizações atribuir prémios a Tarantino, mas a personalidade dos seus filmes fala por si, e é por isso que filmes como American Psycho, Laranja Mecânica ou Trainspotting serão sempre filmes de culto. E é isso que gostamos de ver enquanto espectadores. É isso que mantém o prazer de estar a ver um filme durante quase 3 horas sem um único minuto de aborrecimento ou desinteresse. Sim, Tarantino não se coíbe de alterar a história a seu bel prazer para criar situações atípicas nos seus filmes (a dinamite ainda não tinha sido inventada no ano em que se desenrola Django Unchained), mas se não tivesse morto Hitler em Inglorious Basterds talvez esse filme não tivesse o significado que teve, e isso não é nenhum motivo de castração. O objectivo do cinema não é fazer documentários, essa é apenas uma das suas vertentes...
E quanto a actores o que poderemos dizer? Bem, sem dúvida poderemos dizer que o mais espantoso neste campo é Leonardo DiCaprio que, do ponto de vista do que penso ser a maioria, consegue mesmo superar Christoph Waltz. DiCaprio está acima do muito bom, ao interpretar o vilão, um proprietário de uma plantação, tão idiota quanto racista e orgulhoso. É o humor negro personificado. Waltz está também ao seu nível, tão bom como em Basterds. Samuel L. Jackson quase se supera, tendo igualmente muitos simpatizantes que o elegem como detentor da melhor prestação no filme. Jamie Foxx, também óptimo, reveste a personagem do herói que é a peça central da trama que move o filme e cuja caracterização é complementada por estas excelentes personagens secundárias, nomeadamente Christoph Waltz, que o acompanha desde o início.
A banda sonora, escolhida a dedo, desenterra temas como Freedom na versão de Richie Havens (Woodstock), clássicos de Morricone ou Jerry Goldsmith com Pat Metheny, bem como algum hip hop moderno que pela sua mera inserção no filme solta uma gargalhada de boa disposição ao espectador. 
Este Django Unchained, tal como praticamente toda a obra de Tarantino, deixa a sensação de que tivemos direito a uma refeição completa a um preço barato que nada custou "pagar". Aparentemente não é tão profundo como Inglorious Basterds nem tão bem construído como Pulp Fiction, mas isso não é verdade, pois o seu próprio formato e género (western) não o permitiriam. No entanto é, dentro do que pode ser, uma espécie de auge. E pela primeira vez num filme de Tarantino, e isso é muito importante, tem cenas que realmente incomodam e questionam o espectador obtendo um respeito diferente, quiçá maior, da nossa parte.
Tudo isto torna impossível responder à questão "Qual é afinal o melhor filme de Tarantino?". Todos são igualmente bons, pois todos abordam um tipo de cinema diferente. Apenas a personalidade se mantém... Desse ponto de vista é difícil decidir se todos os filmes são muito bons ou se são mesmo excelentes. Continuemos então com esperança que surja através do nevoeiro a verdadeira e única obra máxima de Tarantino...

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Zero Dark Thirty

Título Original: Zero Dark Thirty
Título Português: 00:30 A Hora Negra
Realizado por: Kathryn Bigelow
Actores: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Joel Edgerton, Chris Pratt, James Gandolfini, Jennifer Ehle
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 157 mins.
M/16
Cor e Som











Após o excelente The Hurt Locker, uma das melhores produções americanas dos últimos anos, Kathryn Bigelow regressa com aquela que pretende ser a exposição da investigação que levou à morte de Bin Laden no Paquistão através dos olhos de Maya, a agente da CIA interpretada por Jessica Chastain. Zero Dark Thirty segue os trâmites de thriller de investigação, policial e política, sempre sóbrio, calculado, com cada cena realizada e escrita de forma exemplar e essencial, sem espaços para devaneios, tudo "comme il faut".
Se o que vemos no écran durante as duas horas e meia de filme corresponde à realidade nunca saberemos com exactidão, mas a verdade é que o que foi exposto incomodou muita gente, e só por isso diria que Zero Dark Thirty é já um filme importante. No entanto, exactidões à parte, mesmo que este fosse um filme com um argumento 100% fictício, seria sempre muito bom. 
A realização, tal como em Hurt Locker está no topo. Os adjectivos já acima referidos fazem de Zero Dark Thirty uma constante tensão e fome para ver o que se vai desenrolar a seguir. A forma limpa, exacta, como as cenas estão filmadas e os diálogos encaixados não cansam o espectador num filme que passa grande parte do tempo em corredores de escritórios. Tudo isto sob o véu de obsessão que se traduz na personagem de Jessica Chastain, a jovem agente da CIA que dedica uma década da sua vida a levar a investigação para localizar Bin Laden em frente, dia após dia. Esta obsessão é também adjectivo que cobre todo o filme: a sede de capturar o homem mais procurado do Mundo que cria toda a antecipação para um clímax de antologia, a fase final do filme onde a equipa de operações especiais da marinha dos Estados Unidos invade a suposta casa onde Bin Laden está escondido. E elogie-se desde já, é uma das melhores cenas de operação especial já filmadas em cinema.
A par de Jessica Chastain, a justa vencedora para Óscar de melhor actriz de 2012, o destaque vai para Jason Clarke. A sua personagem, o agente da CIA, interrogador, está incrivelmente bem construída, demonstrando com clareza e eficácia a humanidade de quem está envolvido numa investigação deste calibre. Também se destaca Kyle Chandler (que participa adicionalmente em Argo), enquanto superior de Maya e Chris Pratt, enquanto um dos soldados das forças especiais.
Zero Dark Thirty, apesar de não estar ao nivel de Hurt Locker, é um filme notável, provavelmente o melhor thriller do ano. Kathryn Bigelow sem dúvida continua a surpreender com a sua refrescante visão da guerra. Este seria um justo vencedor para melhor filme do ano. Infelizmente toda a polémica que o envolve impede-o de ser ainda mais notado.

Nota:

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Lincoln

Título Original: Lincoln
Título Português: Lincoln
Realizado por: Steven Spielberg
Actores: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, Sally Field, Joseph Gordon Levitt, David Strathairn
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 150 mins
M/12
Cor e Som 












Steven Spielberg está de regresso com uma nova encomenda para os Óscares. Desta vez a encomenda está mais bem embrulhada pois possui a presença de Daniel Day-Lewis, considerado um dos melhores actores em exercício actualmente. Lincoln está feito de raiz para Day-Lewis brilhar. É pena que quase tudo o resto seja pobre. Lincoln pretende contar a história de como o icónico presidente conseguiu aprovar a Emenda que trouxe a liberdade aos escravos africanos cuja mão-de-obra era vastamente utilizada nos estados do Sul do país. É pena que o próprio Django, que não pretende nada disto, faça um trabalho melhor. Spielberg desculpa-se, dizendo que queria focar o filme nas reuniões e bastidores políticos que levaram à aprovação da Emenda, bem como na vida privada do presidente, nomeadamente (e como está tanto na moda) a sua relação com a esposa.
Ora, ao apresentar-nos uma série de personagens barbudas e vestidas de igual, em salas de reuniões e em diálogos políticos, temos a sensação de estar a ser bombardeados com História, com factos, e com momentos chave que levaram ao fim da escravatura nos Estados Unidos. Mas afinal não. Na realidade estamos a observar diálogos confusos, a tentar decifrar personagens confusas e a tentar acompanhar raciocínios políticos confusos. A bóia de salvação surge quando a personagem de Lincoln, aqui um sábio sereno, interrompe para falar e todos olham para ele como se fosse uma luz ofuscante. Daniel Day-Lewis tem então um de meia dúzia de monólogos que pretendem puxar pelas suas capacidades interpretativas, mas que na prática são fracos e desinteressantes, ficando-se mesmo pela interpretação que a dada altura mais parece uma peça de teatro, o que não é necessariamente mau.
O outro ponto que cabe analisar diz respeito a Joseph Gordon-Levitt, Sally Field e Tommy Lee-Jones, que interpretam respectivamente o filho, a esposa de Lincoln e um senador anti-esclavagista. Gordon-Levitt parece estar a mais. Não se entende como foi ele parar ao filme de Spielberg: a sua participação é exígua e apesar de entrar em duas boas cenas, ambas não deixam de ser supérfulas (tal como todas as cenas que fogem ao encadeamento histórico de acontecimentos a que vamos assistindo, isto é, cenas familiares, íntimas, etc.). O mesmo acontece com Sally Field, estranhamente nomeada para melhor actriz secundária. Já Tommy Lee-Jones tem uma participação curiosa: aparentemente um papel sem interesse, acaba por ser o único além do de Daniel Day-Lewis que tem de facto alguma relevância além da narração factual histórica. E está bastante bem, como bom actor que é, exceptuando-se uma ou outra cena moralista dispensável e que não cai nada bem com aquilo que o filme pretende ser, mas isso não será culpa do actor.
Lincoln acaba por ser um filme demasiado factualista, pecando por o fazer de forma confusa, e juntando à sopa moralismos e intimidades que destoam da ideia central do filme, a aprovação da Emenda, como se estivéssemos a assistir a dois estilos paralelos na mesma história. E por fim há ainda Daniel Day-Lewis a desnivelar, para o bem e para o mal, todas as personagens e interpretações aqui presentes. Spielberg não borrou a pintura, mas soube disfarçá-la bem.

Nota: 2/5

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Killing Them Softly

Título Original: Killing Them Soflty
Título Português: Mata-os Suavemente
Realizado por: Andrew Dominik
Actores: Brad Pitt, Ray Liotta, Scoot Mcnairy, James Gandolfini, Ben Mendelsohn, Richard Jenkins
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 97 mins.
M/16
Cor e Som








Andrew Dominik regressa finalmente após em 2007 ter realizado O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, para muitos considerado um dos grandes filmes de qualidade desse ano e com razão, muita razão. Em Killing Them Softly, Dominik mantém Brad Pitt e troca o cenário das teias criminosas do Velho Oeste pelo das teias criminosas do Novo Oeste, isto é, da actualidade dos Estados Unidos. Não seria descabido colocar Killing Them Softly num contexto de sucessor espiritual do Assassínio de Jesse James, já que se mantêm muitos dos valores e noções já apresentados nesse filme.
Somos apresentados a uma dupla de criminosos que planeia assaltar um jogo de póker protegido pela máfia local e dá-se o mote que vai gerar uma ligação entre várias personagens à medida que Brad Pitt tenta descobrir quem foram os assaltantes.
Em Killing Them Softly é curioso o contexto político, sempre presente, através de programas de rádio ou televisão que se vão inserindo na acção do filme, que aparentemente se desenrola durante a campanha Obama vs McCain para a presidência dos Estados Unidos. É uma visão para a crise económica e social que ganha contornos nos Estados Unidos e no Mundo e que aqui na película é sublimamente explorada no que toca ao mundo do crime,  ele também afectado.
Reina mais uma vez a destreza de encaixe de imagens, de fotografia e principalmente de desenvolvimento de personagens de Andrew Dominik. Todas as personagens que surgem no filme são exploradas, evoluem, e "existem". Desde o ladrão desajeitado e nervoso Frankie, surpreendentemente interpretado por Scoot McNairy, ao assassíno republicano com valores interpretado por Brad Pitt, ao ex-assassino agora alcoólico James Gandolfini e terminando no sempre único Ray Liotta a interpretar o bode expiatório culpado do assalto.
Destaca-se ainda a qualidade de muitas das cenas do filme, com um trabalho de câmara notável a adicionar às interpretações, dando-lhes uma força rara de se ver hoje em dia, mas que de metafísico não têm nada.
Serve isto para dizer que Killing Them Softly é um filme rígido, sóbrio, limpo, frio e lento embora sempre empolgante, que está filmado de forma artística e profissional, com a excelência de, por exemplo, Haywire, embora aqui exista ainda um maior cunho de autor. É muito difícil resistir-lhe dado o facto que não tem defeitos, salvo talvez a insistência da metáfora económica sempre presente ao longo do filme, mas que é perfeitamente perdoável, não fosse esta a nossa época.
Este Killing Them Softly é um filme noir de destaque por mérito próprio, e que deve ser visto por todos os que apreciam o género, sem exageros, sem grandiosidades, apenas tudo muito bom, ponto por ponto...


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sábado, 3 de novembro de 2012

Skyfall

Título Original: Skyfall
Título Português: 007 Skyfall
Realizado por: Sam Mendes
Actores: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Albert Finney, Bérénice Marlohe, Ben Whishaw
Data: 2012
País de Origem: Reino Unido/Estados Unidos
Duração: 143 mins
M/12
Cor e Som











Com Sam Mendes nas rédeas, conceituado realizador de Beleza Americana e Caminho Para a Perdição, as expectativas para este novo James Bond, que prometia juntar o antigo ao moderno numa forma sólida, eram bastante altas. Mais, a adição de Ralph Fiennes e Javier Bardem ao elenco subiam muito a fasquia, sendo este último considerado por muitos como um dos actores com maior potencial da actualidade.
Tal como muitos dos melhores filmes de acção modernos, Skyfall pretende sobriedade (dentro do possível) e vai beber a muitos desses títulos, a alguns mesmo de forma descarada. É-nos apresentado um James Bond mais velho, já com algumas fraquezas e bastantes limitações. Tal como Ethan Hunt em Missão Impossível III, James Bond já não é implacável ou semi-invencível, o que adiciona uma sensação de insegurança ao espectador que quer ver como é que ele se vai safar agora. Junta-se a sombra do Batman de Christopher Nolan e as suas complexidades mentais  que, embora não sejam tão exaustivamente exploradas como em Batman, ainda conseguem atingir algum interesse.
No fundo Skyfall pode ser dividido em duas partes, antes e após o aparecimento da personagem de Javier Bardem, sendo que a primeira é claramente inferior à segunda. E a pedra toque nem está no actor Javier Bardem em si, mas sim na realização e ambiência que parece que muda de direção. Enquanto a primeira parte é muito espectacular visualmente, ao estilo de acção moderna espalhafatosa, com um papel embaraçoso da bond girl interpretada por Naomie Harris, se é que lhe podemos chamar isso, faz rir algumas vezes e pensar "mas o que é isto?", a segunda parte aposta na sobriedade e tem uma realização que, ainda que seja apenas pelo ponto de vista artístico, é de louvar. E nem é sobriedade em termos de espectacularidade da acção, não, de facto ela continua espectacular, mas há uma técnica visual difícil de entender totalmente que andará inspirada em Children of Men, em Taken, e que a torna mais credível e nada "mas o que é isto".
Há mesmo cenas particulares que podiam ser curtas metragens em si e que valem pelo filme, como a cena do arranha-céus em néons ou a cena final na mansão, para muitos criticada por ser demasiado explosiva mas que é na realidade a cena mais respeitável de todo o filme, nem que seja pela luz utilizada que atribui uma escuridão profundamente real ao que se está a ver. O nome Skyfall inserido neste clímax talvez seja mais um trocadilho engraçado...
Em termos de actuações a primeira palavra vai para Javier Bardem. Embora custe a admitir a verdade é que mal ele entra no écran o filme sobe de nível. Também é verdade que o papel e as falas ajudam, mas neste caso ficamos mesmo presos a este vilão e não há como escapar dele. É a partir da sua aparição que o filme muda, tal como já acima foi dito, e para muito melhor parecendo por vezes que nem se trata do mesmo filme. No entanto a originalidade deste vilão é discutível procurando ter a complexidade de um Joker ou de um Bane mais uma vez de Batman. Parece que agora é tese recorrente apresentar este tipo de vilão. Daniel Craig também tem uma boa performance. Se é o James Bond correcto é discutível, mas enquanto herói de acção está muito bem. Judi Dench e Ralph Fiennes estão muito bem também como não poderia deixar de ser... Uma palavra de apreço para Albert Finney a interpretar aquele que aparenta ser um ajudante da velha família de Bond e que o viu crescer e que agora está velho. Embora apareça apenas na sequência final a sua presença é deliciosa e mais uma vez sobe o patamar.
Por ultimo parece que as bond girls deixaram de existir. Em Skyfall há duas, mas nenhuma delas o é realmente. Aparenta ser essa a direcção correcta pois sempre que Naomie Harris aqui o tentou ser falhou redondamente...
Skyfall é, para finalizar, um thriller de acção acima da média, com momentos de inspiração muito bons e interpretações bastante agradáveis com um destaque para Javier Bardem algo desequilibrador. Isso não o livra no entanto dos seus momentos embaraçosos da primeira hora, algumas cenas que roçam o ridículo cuja diversão inerente simplesmente não compensa e ainda alguma filosofia barata e presunçosa que é perfeitamente dispensável num filme que se afirma ser da série 007 e que não é na verdade tão original quanto isso.

Nota: 3/5

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

The Dark Knight Rises

Título Original: The Dark Knight Rises 
Título Português: O Cavaleiro das Trevas Renasce
Realizado por: Christopher Nolan
Actores: Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Michael Caine, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Liam Neeson
Data: 2012
País de Origem: E.U.A.
Duração: 164 min.
M/13Q
Cor e Som











Em 2005 Christopher Nolan começou uma era. Pegou nos anteriores filmes de Super-Heróis e desconstruiu o protagonista, dando-nos o Homem por de trás da máscara, de forma crua, emocionante, real e principalmente humana, enquanto qualidade. A vulnerabilidade do personagem assume o papel principal. Cada relação, cada preocupação, cada dilema, cada decisão, cada ferimento, cada emoção são mais reais do que nunca e influenciam toda a cadência histórica.
Chegamos a 2012 e à tão aguardada conclusão da trilogia pensada, imaginada e acarinhada por Christopher Nolan, que já conquistou o lugar entre os melhores realizadores, se não o melhor dos últimos tempos recentes, falando a sua filmografia por si.
Muita apreensão, expectativa e celeuma envolveram a produção. Estará o novo Batman ao nível ou melhor do protótipo criado pelo segundo? Irá ter a conclusão digna e merecida? Conseguirá Nolan superar-se?
Com este terceiro filme tentou ir mais longe, ambicionou mais do que nos dois anteriores e pegou no elemento, ou no tema como preferirem, que mais marca os seus filmes e que os leva numa direcção que ele sabe dominar tão bem tornando-os em algo mais, moldando-o e adaptando-o. Falo das profundas explorações psicológicas, que atingiu com Inception o máximo ao mostrar com perspicácia a maneira como as pessoas pensam.
Encarnando em Bane esse tema, voltamos a ser levados e puxados para um enredo familiar, em que herói tem que ser mais do que isso, tem que ser mais que o homem, tem que ser mais que o símbolo, tem que ser mais que uma lenda, tem que ser algo mais, assumindo neste filme  a narração o papel principal. Nolan já tinha tentado em The Dark Knight, mas agora tem de facto o destaque tal como acontece em Inception, contando igualmente com o outro factor formando uma simbiose, o fantástico elenco. 
Dark Knight Rises começa oito anos após o final do segundo filme, e somos deixados na expectativa do porquê dos acontecimentos, no porquê de as personagens se terem moldado da maneira que as encontramos. Batman encontra agora a sua maior ameaça em Bane, um vilão que parece impossível de derrotar. Este vai ser o ponto de partida para a conclusão tão espera desta trilogia. Temos uma primeira parte do filme diferente da do seu antecessor, mais calma e até por vezes monótona com a introdução de personagens totalmente dispensáveis, mas também temos cenas de uma "solidão reconfortante", como a que pela primeira vez que vemos Wayne no seu quarto. Numa segunda parte, em que o filme tenta fechar todas as questões, aí sim, temos a verdadeira essência que marcou os anteriores filmes. E é aqui que Dark Knight Rises tenta ser diferente, fazendo da sua capacidade para contar uma história o ponto central.
Começando pela narração não me coloco ao lado de quem considera que a mesma apresenta demasiadas falhas, concordo sim, que Nolan não conseguiu atingir o nível que pretendia, mas que estamos perante uma história muito bem contada, levando-nos numa viagem brutalmente emocional, não vazia, mas com as suas naturais falhas. Tentou fazer deste filme algo mais que a realização, algo mais que a produção, tentou contar uma história, como que uma roda em que as personagens iam encaixando e fazendo-a girar. Em que cada um representa o seu papel na grande história que está a ser moldada. Tendo quase três horas, não passa nenhuma vez pelo aborrecimento, a sua velocidade de acontecimentos torna-o num grande espectáculo visual. Até mesmo quando o filme está a tentar resolver os vários pontos e conexões, não nos sentimos minimamente confusos, funcionam na perfeição. Tudo vai ter resposta a seu tempo.
A nível das personagens Bale está mais uma vez excepcional, dando profundidade emocional ao personagem, que talvez se tenha perdido um pouco em The Dark Knight, mas recuperando agora o desenvolvimento feito em Batman Begins, em que toda a sua humanidade enquanto condição e não qualidade, é posta à prova, só se questionando a necessidade da sua alteração vocal, um tanto ou quanto, ridícula e cansativa quando encarna Batman. Christian Bale, talvez o melhor actor da sua geração.
Tom Hardy brilhantemente, e com as devidas diferenças em relação a Heath Ledger sendo desnecessária qualquer comparação de qualidade, visto cada um transmitir sensações diferentes, ambas aterradoras, apresenta Bane, incutindo-nos uma sensação de medo, através da sua força e do terror que causa, quase sufocante, mas também pela sensação de que está no controlo de todas as situações pela sua genialidade. Pela primeira vez Batman não é o mais forte. O seu objectivo é a destruição de Gotham, interrogando-se o espectador se através da força das suas convicções (quais?), ou pelo contrário, pela cobardia, ataxia politica, instabilidade económica em que a outrora gloriosa cidade caiu. O chavão que nos fica na cabeça mesmo depois de vermos o filme, "I am Gotham’s reckoning", significa isso mesmo, que Bane é um natural e necessário correctivo, implicitamente chamado para acabar com a destruição moral, social, económica e politica. De referir que tal como Hugo Weaving teve que fazer em V for Vendetta, Tom Hardy tem uma vocalização que completa a personagem sendo altamente estilizada, aumento mais o sentimento de invencibilidade do personagem. O que me agradou bastante, verdade seja dita.
Anne Hathaway como Catwoman/Selina Kyle desafiou as minhas expectativas, que não eram as melhores, e foi de facto uma razoável surpresa, roubando as cenas a seu belo prazer, mas talvez não tenha sido tão bem explorada quanto devia, e algumas da suas acções, nomeadamente no final, serem algo questionáveis e até pouco plausíveis.
Mas o herói não cantado, é Alfred interpretado por Michael Cane que mais uma vez consegue não só ser o melhor em ecrã, mas superar as suas anteriores prestações. O vinculo emocional estabelecido com Wayne, tornam esta personagem na verdadeira alma que impulsiona o filme, tanto pela sua presença como ausência. Confesso que lacrimejei aquando de uma das suas falas no climax final.
A nível de realização, este foi sem dúvida o filme com mais meios que Nolan trabalhou até hoje, mas não por isso a melhor. Recordo aqui as palavras do meu colega David : "A forma sóbria como movimenta a câmara, encadeia acontecimentos e exige ao espectador que leia nas entrelinhas do que se está a passar" continua presente mas não tão sublime como nos anteriores filmes, cedendo um pouco ao hype criado. As cenas de acção estão impressionantes como sempre, particularmente as do confronto entre Batman e Bane, mostrando toda a sua frieza e brutalidade, toda a acção crua e pura dos embates entre os protagonistas.
Apesar do que escrevi estou em crer que a única falha de Batman, mesmo assim foi a não exploração das personagens. Não se trata de uma contradição, só que talvez o problema tenha sido o facto de em quase três horas existirem demasiados assuntos para serem resolvidos e Nolan se ter perdido com tantas personagens, deixando dilemas, escolhas, consequências, batalhas morais, um pouco ao abandono que não deu para fazer justiça à narração e à construção dos protagonistas como devido, como um todo. Não deixa de ser deveras interessante a construção dos diálogos, inteligentes, principalmente nas personagens de Bane e Alfred. Frenético até ao último momento, não nos deixou de surpreender. Não concordo nada que se assista à desconstrução do herói, isso fez o primeiro. Posso sim concordar que temos uma maior humanização, aí sim, verificamos a linha evolutiva desde Batman Begins.
Uma pequena critica ao facto de alguns acusarem Dark Knight Rise de ser pro-capitalista, fazendo da classe mais abastada a vítima em certa altura do filme, como se a culpa da queda moral e económica não fosse de quem gere o dinheiro, e tenho que concordar, falhando talvez o seu ponto, que foi conseguido nos filmes anteriores. Até uma referência" ao movimento "Ocupar Wallstreet" foi infantilmente denegrido, através da sua má utilização e alargamento sem o devido cuidado.
A banda sonora quase tribal, está sem dúvida ao nível do pedido, e apresenta-se como a melhor dos três filmes.
Com Dark Knight Rises a trilogia teve um final em que as conclusões não são mais importantes do que as emoções que invocam à medida que as vamos conhecendo, e que bem sabe Christopher Nolan gerir essas expectativas, em que a grande escrita e direcção podem transformar um filme de super-heróis naquilo que nunca pensou que se poderia fazer. Todos esperavam um final digno de ser recordado, um final que fizesse justiça ao que se conseguiu e explorou, entregando precisamente o que se pretendia, talvez em alguma ou outra cena nos atingisse a sensação de que seria óbvio. Até que nos volta a surpreender. Conseguimos sentir o sofrimento, esperança e felicidade que cada personagem no final apresenta, relação esta com o espectador conseguida pela qualidade única dos interpretes, que nos prenderam e não mais largaram desde o primeiro filme. Não estando ao nível do segundo, nem marcando propriamente o exemplo a seguir, não deixa de ser particularmente entusiasmante e glorificante. A comparação a The Avengers deve ser posta totalmente de lado visto terem objectivos completamente diferentes atingindo na perfeição cada um aquilo que se pretendia. Teve o final que merecia, mas olhando para The Prestige, Inception e até o próprio The Dark Knight, ficamos com a ideia que poderia ter sido feito algo mais memorável, que nos continuasse a alimentar a expectativa de outra forma, talvez mais faminta. Mas não deixa de merecer uma salva de palmas a forma espectacular e potente como termina este grande filme, fruto de uma ideia e de uma visão única.


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Outras Notas:
David Bernardino: 3/5

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

The Road

Título Original: The Road
Título Português: A Estrada
Realizado por: John Hillcoat
Actores: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce, Michael Kenneth Williams, Molly Parker
Data: 2009
País de Origem: E.U.A.
Duração: 111 min.
M/16
Cor e Som
Cormac McCarthy's (autor)










Muito poucos filmes têm na sua génese uma base de sustento como The Road. Essa base é a mente de Cormac McCarthy's, tendo o livro que dá vida ao filme, sido premiado com o prémio Pulitzer. Quem não se lembra de No Country for Old Men? Criação do mesmo autor.
Não poderei fazer uma comparação do livro ao filme, enquanto adaptação, visto não o ter lido, mas enquanto filme em si, que entrega toda a sua história da forma que este o faz, esse será o principal objectivo.
Actualmente assistimos a uma entrega constante de filmes pós-apocalípticos, de fim do mundo, de fim da sociedade, da civilização, da civilidade, de fim da nossa ideia de humanidade e da própria humanidade em si, mas The Road consegue o que muito poucos conseguiram. Consegue um nova perspectiva, algo novo e surpreendente, como raramente se vê, e que quando se vê faz-nos perceber o porquê de o cinema ser mais do que uma mera projecção numa tela.
Uma catástrofe inexplicável e inominável atingiu a terra, criando uma paisagem desolada e cinzenta, um verdadeiro holocausto orgânico, onde poucos de nós restam, e os que ainda existem lutam para sobreviver, já tendo esquecido a sua humanidade enquanto qualidade. Nunca temos uma explicação concreta do que aconteceu, mas são-nos dados indícios para termos uma ideia do que poderá ter sido e das transformações que ocorreram, mas visto o filme ser em torno da relação de sobrevivência de um pai e do filho, não precisa necessariamente de ser algo muito especifico. Seguimos os passos de um pai e do seu filho, que caminham para sul, tentando encontrar algum resto de civilização e civilidade, enquanto somos arrastados por um cenário pós-apocalíptico que nos atinge de uma maneira diferente pelo visionário, brilhante, magnifico e principalmente simples e subtil trabalho de fotografia. Caminham, numa viagem pela estrada, suportando duras condições ambientais, falta de comida e abrigo, ladrões, saqueadores e canibais. O objectivo é sempre continuar em frente e sobreviver.
Na sua peculiar discrição consegue capturar o detalhe de uma realidade pós-apocalíptica, sem nome, de  horror próprio de um holocausto, e combinar o pior dos futuros com as mais profundas, genuínas  e bonitas características humanas que mantêm as personagens a lutar pela sua sobrevivência. Decompõe precisamente os pólos opostos de uma existência apocalíptica, e retira a sua força da intimidade da relação entre as duas personagens, que não têm nome, sendo referidos apenas como Father and Son. 
Mas o mais fascinante e fenomenal no filme é a actuação que Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee entregam, enquanto pai e filho combinados com uma das melhores cinematografias que temos tido o privilégio de visionar. É contra a decadência que impregna, que este vinculo entre pai e filho é tão intenso, levando-os pela complexidade que acompanha não só o facto de se manterem vivos mas também da manutenção da sua humanidade e dignidade fazendo o certo e o errado perante as pessoas que encontram.
No meio das extensas paisagens nuas, cinzentas, austeras, severas, impiedosas, desoladas, mas visualmente atraentes por um lado, e por outro com mais detalhe, onde cidades inteiras estão desertas e destruídas, (com as devidas adaptações: 28 Days Later e Children of Men), Viggo Mortensen leva-nos numa viagem emocional de decisões e de sofrimento, que conseguimos viver, provando ser um dos melhores actores actualmente. Evoluiu muito desde a sua personagem de marca em "The Lord of The Rings" e cresceu para se tornar num verdadeiro profissional, num veículo de emoções, como podemos verificar pelas suas escolhas cinematográficas e principalmente pela personagem deste filme. Já não me sentia tão extasiado por um trabalho de um actor, faz algum tempo.
Kodi Smit-McPhee foi uma grande e gloriosa surpresa, carregando genuinamente nos seus ombros o peso da personagem, o peso  do sofrimento e do desconhecimento, das verdadeiras lágrimas que lhe correm pela cara nas suas melhores cenas. O tempo fará justiça a este actor que surge.
John Hillcoat introduziu uma série de flashbacks em forma de sonhos onde se vê a vida do pai e da mãe, interpretada por Charlize Theron, também sem nome, cheia de vida, cor e esperança, sendo principalmente emocionante e comovente a cena do piano e de quando a família se resume ao pai e ao filho,  excepcionalmente construidas para contrastar com a sombria, escura e terrível realidade que é aestrada.
De referir que igualmente emocionante é a cena do jantar no abrigo, da realidade mostrada a partir do viaduto destruído quando Viggo Mortensen deixa fugir alguns detalhes do seu passado e do clímax sem referir mais para não tirar o prazer do visionamento do filme.
Uma nota para o fantástico papel de Robert Duvall, um dos maiores senhores do cinema vivos e de Guy Pearce, que já nos tem habituado e que trabalhou com Hillcoat no brilhante "The Proposition".
The Road é um olhar escuro sobre o futuro, sobre a destruição da civilidade sobre a civilização e não mais do que o fim do mundo do que o fim da sociedade, onde a nossa natureza primária não reprimida é deixada ao sabor da necessidade de sobreviver, levando um pai pelo bem do seu filho, a convencer-se que a humanidade em cada um de nós apesar de tudo irá resistir. Sentimos a incerteza da condição humana, mas o triunfo que é a esperança que a relação entre estes dois seres nos transmite, em que um arrisca tudo para o outro sobreviver, que o sacrifício irá compensar, que a esperança, até para os que no caminho para a sobrevivência se perderam e já não se conseguem ajudar, ainda existe.
O compromisso com a visão sombria do livro pode mostrar-se demasiado para alguns, mas estamos na presença de um dos melhores filmes dos últimos anos. Obrigado Senhor Viggo Mortensen!

Nota: http://3.bp.blogspot.com/-iGgayuPEgnE/T1VNpGOTuMI/AAAAAAAADJU/sAR3D4XFQdQ/s1600/4stars.jpg

terça-feira, 10 de julho de 2012

Lockout

Título Original: Lockout
Título Português: Lockout - Máxima Segurança
Realizado por: James Mather, Stephen St. Ledger
Actores: Guy Pearce, Maggie Grace, Peter Stormare
Data: 2012
País de Origem: França
Duração: 95 mins.
M/12
Cor e Som












Um condenado por conspiração contra os Estados Unidos é enviado para uma prisão de alta segurança no espaço onde todos os prisioneiros se soltaram para salvar a filha do Presidente.
Tal como muitos outros, Lockout é um filme que não pode nem pretende ser levado a sério. No entanto isso não é desculpa para tudo, pois há filmes que conseguem assumir essa condição e outros que não. Quando se compara por exemplo Crank - Veneno no Sangue a Lockout o primeiro claramente ganha vantagem, pois pretende ser ridículo e fá-lo com estilo e consistência. No que toca a Lockout é simplesmente demasiado irreal para sorrir de todas as vezes que algo de absurdo acontece. O CGI está muito fraco e por vezes cai no ridículo, atingindo o ponto mais gravoso quando vemos duas pessoas a cair com fato de astronauta para a terra, atravessar a atmosfera, tirar o fato, abrir um pára-quedas e aterrar no meio de Nova Iorque. É impossível não rir, mas também a ideia será essa. Talvez o problema de Lockout seja pensar que é mais divertido do que é na realidade.
É preciso admitir que o filme tem um grande ponto forte, e que é Guy Pearce e a sua personagem. Não haverá dúvidas que Guy Pearce é um excelente actor e aqui a personagem de herói bad-guy assenta-lhe que nem uma luva, um pouco ao estilo de John Mclane em Die Hard, mas ainda mais rude. Quando Guy Pearce está no écran o filme é excelente, as piadas que solta tem de facto piada e o estilo é contagiante. Infelizmente boa parte do filme não conta com Guy Pearce no écran e é nessas alturas que as fragilidades de Lockout saltam à vista. Maggie Grace, a filha do presidente, dificilmente não consegue deixar de ser simplesmente irritante e até chegamos a querer que ela saia de cena para ver Guy Pearce a solo contra 600 prisioneiros. E o cast de vilões é também particularmente fraco...
Ainda assim Lockout não é um filme mau. É um filme divertido e que não custa ver, tem uma excelente personagem interpretada por Guy Pearce que infelizmente não encontrou o filme certo. Existem decerto coisas muitos piores e, no fim, conseguiu aquilo que desejava: entreter o espectador, ainda que com algumas torcidelas de nariz. Com um melhor orçamento e uma melhor seleção de actores secundários a história seria, certamente, outra.

Nota: http://1.bp.blogspot.com/-EZjj-Eh1AFU/T1VZ8vr__xI/AAAAAAAADJ4/_O8n8O9p0Jg/s320/2stars.jpg

domingo, 1 de julho de 2012

Prometheus

Título Original: Prometheus
Título Português: Prometheus
Realizado por: Ridley Scott
Actores: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Greene, Guy Pearce, Idris Elba
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 124 mins
M/16
Cor e Som












Em 1979 Ridley Scott inventa Alien, o primeiro filme de uma série de 4, que ajudou a traçar o género do survival horror, mas mais que isso adicionou a ficção científica e criou um filme que além de ser de terror é uma aventura espacial. O ambiente era de mistério enquanto uma nave mineira no ano de 2122 chamada Nostromo respondia a um aparente pedido de socorro vindo de um planeta muito distante da Terra. É ao entrar em contacto com esse planeta que Ripley e o resto da tripulação se deparam com uma nave extraterrestre de origem desconhecida que aparentemente lá se teria despenhado, com o seu suposto piloto já em estado fossilizado... Seguindo viagem é apenas mais tarde a bordo da nave que a tripulação se depara com a famosa criatura que dá nome à saga. 
33 anos depois, Ridley Scott regressa ao universo de Alien com Prometheus, a prequela, passada no ano de 2093. O ponto de partida para Prometheus é a descoberta de ilustrações comuns a várias civilizações antigas que apontavam a existência de um sistema planetário para onde figuras gigantes estariam a apontar, como que se de um convite se tratasse para visitar os nossos "criadores" num planeta longínquo. Agora, em 2093, esse planeta foi encontrado e com a ajuda da tecnologia da época, a nave Prometheus patrocinada pela Weyland Corporation parte em expedição com a esperança de responder a uma das perguntas mais importantes da história da humanidade: qual a origem do Homem?
Embora talvez não esteja ao nível daquilo que tanta expectativa gerou, Prometheus é um filme que não desilude, agrada, e se torna até viciante, principalmente para quem for fã do género de ficção científica, aqui muito mais presente que o "terror" em si, que acaba por ser mais atmosférico que outra coisa.
A grande crítica que geralmente é apontada a Prometheus é o facto de não responder a muitas das perguntas que coloca, não fosse o seu argumentista Damon Lindelof, o homem por detrás do enredo de Lost, cujo final acabou por sofrer uma reacção semelhante do público. Mas a verdade não será exactamente essa, pois com alguma imaginação e com a soma de alguns factores é possível concluir respostas para a maior parte das dúvidas, senão todas, e estas poderão ser espantosas. Quem diria que Ridley Scott se iria, ainda que indirectamente, referir à Bíblia?
A fragilidade de Prometheus está na sua inconsistência em diversos pontos. Em termos de ligação à série Alien, ela existe, mas não é gratuita. Esta não é a prequela directa que todos queriam que fosse, antes é uma peça necessária para entender de facto a origem da nave descoberta no ínicio do filme de 1979 mas ao mesmo tempo lança uma mitologia complexa que nos ajuda a compreender este futuro fictício e mesmo a sociedade do universo de Alien, mais abordado na sequela de 1986 "Aliens - O Reencontro Final", que gira em torno de empresas bilionárias que tomam conta de toda a evolução tecnológica. Dessa forma Prometheus acaba por não se definir pois na prática estão lançados os dados para uma nova saga e a anterior acaba por não ficar exactamente explicada. No entanto é também aí que reside a sua magia. 
Filosoficamente é muito interessante, e é feito um exercício curioso: enquanto as personagens procuram respostas nós também as procuramos no filme. O ambiente é apaixonante, os efeitos especiais não enjoam e existem algumas cenas que irão ficar na memória de muitos, e que serão certamente recordadas tal como a explosão do peito de John Hurt no primeiro Alien ainda é recordada.
Também inconsistentes são as personagens, uma excelentes e outras completamente deslocadas e este é um ponto que merece análise. A grande interpretação vai, como não poderia deixar de ser, para Michael Fassbender, desta vez a interpretar o robô humanóide David que acompanha a tripulação e a auxilia em tudo o que for necessário. É também, apesar de não ser a principal, a personagem mais interessante pois é como se de uma criança se tratasse. Uma criança que vai aprendendo, que vai interagindo, que vai demonstrando emoções, ainda que simuladas. A sua postura, forma de falar, é de facto apaixonante este David e mais uma enorme interpretação de Fassbender. Depois temos Noomi Rapace, que aqui interpreta quase que uma reformulação da personagem de Ripley, interpretada por Sigourney Weaver na saga Alien original. Até no cabelo são parecidas. Isso não é negativo mas é desnecessário e de resto a interpretação de Noomi Rapace deixa um pouco a desejar. A personagem não entra em nós como desejaríamos e como David, por exemplo, entra. Charlize Theron, a interpretar a responsável pela expedição tem uma boa performance, de uma rectidão militar, mas também não consegue encher as medidas como se pretendia. E o mesmo acaba por acontecer com o resto da tripulação.
Depois existem algumas situações irrealistas e difíceis de perdoar como a existência de alguns episódios a bordo da nave, que chamariam a atenção de qualquer um, nomeadamente tratando-se de uma nave com uma impressionante tecnologia capaz de detectar qualquer problema no seu interior.
Finalmente a última inconsistência, também advinda da crise de identidade de Prometheus (que teve um longo período de tempo até ser decidido se haveria de cair nas mãos de Ridley Scott ou de James Cameron e que inicialmente até se chamaria Paradise) é que este não consegue assumir o estatuto de filme de culto nem de filme comercial, ficando algures no meio. Mancham o filme as situações em que o diálogo faz questão de explicar ao espectador o que se está a passar. Felizmente estas questões são facilmente perdoáveis, mas por muito que se queria adorar Prometheus, elas estão lá.
Prometheus é um filme fascinante, viciante, engenhoso, com um brilhante conceito e cenas inesquecíveis e que orgulhosamente se coloca ao nível da saga Alien, sendo seguramente superior ao 3º e 4º filmes. É para ver e rever com sorriso. No entanto as suas fragilidades colocam-no abaixo daquilo que seria desejado. Ridley Scott está de parabéns com aquele que é o seu melhor filme nos últimos anos. Seguramente será o ponto de partida para uma nova e fascinante saga, talvez focada mais no sci-fi que no horror. E quem sabe se não será James Cameron a dirigir uma possível sequela? E David Fincher a seguinte?

Nota: http://3.bp.blogspot.com/-TvLr7T4GLsY/T1VZ_Uu6GSI/AAAAAAAADKE/J1ZXy306DQI/s320/3stars.jpg

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mamoru Oshii


Nome: Mamoru Oshii
Profissão: Realizador, Argumentista
Data de Nascimento: 8 de Agosto de 1951
Naturalidade: Japão
Filmografia (parcial):
Dallos (1983)
Urusei Yatsura: Only You (1983)
Urusei Yatsura 2: Beautiful Dreamer (1984)
Angel's Egg (1985)
Twilight Q (1987)
The Red Spectacles (1987)
Patlabor: The Movie (1989)
Maroko (1990)
Stray Dog: Kerberos Panzer Cops (1991)
Talking Head (1992)
Patlabor 2 (1993)
Ghost in the Shell (1995)
Avalon (2001)
Ghost in the Shell 2: Innocence (2004)
Amazing Lives of the Fast Food Grifters (2006)
The Sky Crawlers (2008)
Kill (2008)
Assault Girls (2009)
Tetsujin 28 1/2 (2010)




Mamoru Oshii: A alegoria como último reduto narrativo

 [Originalmente publicado no #39 Waribashi]


Numa altura - talvez como a nossa - em que o sentido se desloca inteiramente dos significados, em que não parece permanecer uma vida para além da vida e todo e qualquer tipo de inquietações maiores nada mais são do que esponjas secando ao sol do nosso quotidiano e dos outros, poder-se-á  voltar a narrar os estranhos acontecimentos que pautam as vidas humanas, ou melhor, contar-se a vida humana como uma totalidade determinada pelo próprio conto. Foi este sempre o sentido da alegoria: a fúria das palavras que, ao criar um mundo de espelhos (os sentidos imediatos paradoxais aos mediatos), cristalizariam a essência humana como um todo. Hoje, precisamente porque nada temos de cristalizado, de certo, voltamos inegavelmente à mesma necessidade que conduzia os homens do Mundo Antigo a contar histórias face à adversidade de um mundo anti-narrativo por essência caótico. A alegoria foi assim, não só um estádio importante no desenvolvimento da linguagem humana (porque ela propõe uma abstracção que se relaciona com todo o tipo de expressão simbólica ou poética), mas também uma arma. Uma arma evolutiva, na esteira das primeiras pedagogias morais e das primeiras existências religiosas. Em suma, o traço alegórico é um dos vestígios primordiais que a humanidade possui, da passagem vertiginosa que vai do animal para o homem.
É com alguma incompreensão que certos olhares se direccionam para o corpo artístico de um realizador como Mamoru Oshii. Usualmente, a sua maneira de orquestrar e montar uma narrativa resume-se a um conceito ou conceitos muito sólidos e uma execução, por sua vez, pesada na omissão de certas características fundamentais que tornam uma história mais clara e verosímil - por exemplo, um típico filme de Oshii não têm tempos nem espaços exactos e os personagens costumam actuar numa espécie de dormência que proporciona longos monólogos ou silêncios misteriosos -, estando certamente todo esse processo criativo de desenvolvimento narrativo e dos personagens subordinados aquele núcleo essencial, que representa as primeiras ideias ou a ideia. Foi assim que Ghost in the Shell (1995) mostrava ao Ocidente, pela primeira vez, um estilo de fabricar concepções narrativas muito mais próximas da literatura do que propriamente da linguagem cinematográfica, e ainda aparentemente mais distantes dos cânones da animação tradicionalmente entendida como tal. É verdade que as componentes visuais são sempre bastante atractivas e até revolucionárias em qualquer trabalho de Oshii (sendo essa a ponte perfeita que faz a ligação entre a parte conceptual e a parte motora do seu trabalho) só que se não atendermos ao estritamente conceptual e se só a animação nos fizer sentir apreço, estamos escapando à questão essencial dos filmes de Oshii. 





Uma nova apropriação de uma linguagem antiga

Mamoru Oshii foi dos primeiros realizadores modernos (senão o primeiro) a encaixar uma assinatura alegórica tão forte e distinta em géneros e propostas das quais não se esperaria essa natureza, sendo de tal modo radical, que toda a ambiência das suas obras se alastra no decifrar de símbolos e significados perdidos. É certo que a primeira parte da sua prolífica e diversa obra (a que começa nos anos 70 e vai das variadas séries anime como Yatterman, passando pelas inovações narrativas de Dallos, até aos dois filmes de Urusei Yatsura) não reflecte ainda totalmente esta visão segundo a qual a alegoria, ou seja, a necessidade pura da ambiguidade das múltiplas leituras e sentidos, molda a própria criação em questão em todas as suas transformações, desdobramentos e aparências.
Mas chegado a 1985, Oshii realizaria aquela que é sua verdadeira obra de maturidade, muito antes de Ghost in the Shell e que prefigura a sua obsessão pela forma alegórica como último reduto narrativo. Angel’s Egg (1985) é um filme de animação que seguindo os trilhos da escrita Kafkiana, anuncia o confronto interior de um mundo dilacerado entre a simbologia de um profundo enraizamento moral, e uma consequente tentativa de transgressão perversa desses mesmos valores anteriormente assimilados. Como se sabe, Mamoru Oshii faz parte de uma minoritária percentagem de japoneses que tiveram uma educação cristã e, reza a lenda, que por volta de 85 perdeu a fé irremediavelmente. Angel’s Egg é o resultado caótico dessa possível queda a si. E se a alegoria normalmente significa o retrato inteiro e integro que, através das fragilidades humanas (da chamada condição humana) nos abre caminho à moralidade (basta pensar-se nos contos infantis!), então a partir de Angel’s Egg as alegorias desvirtuadas de Oshii representam exactamente o inverso: a alavanca proporciona a destabilidade e a ruptura, para o questionamento e a dúvida, para a noite.
Angel’s Egg apropria-se das simbólicas e do meio de comunicação tipicamente cristã para subverter um mito perverso sobre a perda da brancura, sobre a mancha negra que destrói a inocência, pintando um mundo ominoso onde o caos e a maldade dançam na roda viva da vida. O choque desse filme não é mais do que um sentimento perverso de esmagamento que só a alegoria (o tocar no geral, no essencial) nos poderia oferecer. Tudo é misterioso e sagrado, tudo é pintado a negros e azuis e o silêncio impera como manto de um fleumatismo típico da linguagem que opera nos sentidos mediatos. 


A veneração: gosto mitológico e o meta-cinema

Se toda e qualquer expressão do geral (ou seja, de cariz filosófico) agrada à estilística de Oshii, então pode-se entender as suas desconstruções futuristas à luz da criação de uma nova mitologia. Essa redescoberta de uma nova mitologia é composta maioritariamente por três grandes sagas de ficção científica: os seus dois excelentes filmes “live-action” que representam a Saga Kerberos (The Red Spectacles de 1987 e Stray Dogs: Kerberos Panzer Cops de 1991), mais os dois filmes de Patlabor (Patlabor 1, 1989 e Patlabor 2, 1993) e, de seguida a dupla de filmes de Ghost in the Shell (Ghost in the Shell, 1995 e Ghost in the Shell: Innocence, 2004). Podendo ainda considerar Avalon (2001) e o seu mais recente Assault Girls (2009) como pertencentes à mesma saga. O interesse aqui, parece-nos, é o de construir uma narrativa maior e mais abrangente que supera a própria duração individual de cada filme. De facto, no caso de Oshii as suas sequelas são mais do que mero franchise, pelo que cada um dos filmes é uma peça isolada de uma constelação em comum, tal e qual como nos velhos mitos em que a própria assinatura parece contar pouco (Patlabor e Ghost in the Shell estando associadas a Oshii, não são criações originais suas).
É esta característica singularmente veneradora que favorece outra particular obsessão raramente referida no contexto desta obra: a capacidade do cinema de Mamoru Oshii se desdobrar na auto-referência. Em The Red Spectacles, por exemplo, a ficção científica do plot original dá lugar a vários engenhos meta-cinemáticos (isto é, questionando o próprio filme dentro do filme) quando o personagem principal ao fugir das forças especiais do regime opressor, se dá a escapar do próprio estúdio de cinema. Outra situação memorável é o final do mesmo filme em que a cor surge de repente no ecrã preto e branco, como se o filme fosse uma espécie de sonho colectivo. Outro caso seria Talking Head (1992), uma das suas obras mais crípticas, um exemplo puro e duro de meta-cinema, lidando com o processo criativo de um desenhador fantasma e um caso misterioso na feitura de um filme de animação. Por último Tachigui: The Amazing Lives of Fast Food Grifters (2006), que é um caso não só de humor agudo e auto-referencial, como se trata também de um questionamento interno da própria cultura japonesa através de comida, do cinema, e dos próprios mecanismos tradicionais de um filme de animação.
A mitologia e o meta-cinema são dissecações necessárias de um cinema que opera principalmente com a leitura e interpretação de símbolos e signos. Também eles – assim como no traço alegórico das narrativas – vão do literal ao metafórico, do imediato ao mediato e estabelecem uma outra ordem, na maior parte das vezes, mais entrelaçada, mas inquestionavelmente mais rica em conteúdos.  


Ficção científica: Inocência e metafísica 

Parece-nos óbvio que Oshii está associado à ficção-científica. Mas que poderá significar esta preferência temática e que relação tem ela com o esquema alegórico dos seus filmes? Em primeiro lugar, as alegorias de Oshii quando aplicadas à ficção científica não resultam apenas naquele lugar comum, algo infantil, da hiperbolização de certos aspectos da realidade num cenário futurista próximo ou distante. Em Mamoru Oshii, quer seja ficção científica ou não, parece que o mundo que se nos apresenta é sempre inexplicado e o espectador é, na maior parte das vezes, posto "in media res”. No que a este cinema diz respeito, poder-se-ia mesmo dizer que, no essencial, a ficção-científica serve apenas de pretexto para se abrir caminho a temas muito mais intemporais (se os Ghost’s já eram assim, a destilação máxima acontece com The Sky Crawlers (2008) que, através de um cenário distópico, lida extensivamente com o tema da eterna criança num mundo à margem de afectos e comunicação).  É aqui que voltamos a encontrar um tema obsessivo de Oshii: a inocência (não é por acaso que o segundo filme de Ghost in the Shell se apelida de Innocence e lida ele também com a diferença entre autómatos e humanos através do conceito de pureza, que mais não é do que o-não-sabido primordial).
Reencontramos aqui a mesma dimensão circular que já vinha desde Angel’s Egg: ressoam ainda as mesmas temáticas cristãs da inocência como a ausência de pecado e o conhecimento (científico ou não) como o seguimento da destruição e da corrupção dos seus intervenientes. O final radicalmente ambíguo do primeiro Ghost in the Shell pode ser visto como a solução para esta problemática e a Major Motoko Kusanagi como a personificação perfeita de quem, conseguindo aceder ao conhecimento, à rede da informação infinita, renasce literalmente com outro corpo e consegue viver soberanamente, sem se destruir. O próprio final de Avalon que  mostra um confronto profundamente simbólico numa igreja entre uma figura angelical e a personagem principal que lhe aponta uma arma, pode ser interpretado da mesma maneira segundo a qual em Angel’s Egg o ovo superprotegido da criança é quebrado pelo homem perversamente crístico. Ao lidar com o tema da inocência de modo alegórico, Oshii viu-se obrigado a tratar o tema da identidade, da mudança que tanto assume a figura da morte (reais ou figuradas) como de renascimentos simbólicos.
Se as alegorias de Oshii são muito mais do que meras distopias, é  porque elas conservam o único e o mais antigo modo - mas precisamente aquele que, nós modernos, mais negligenciamos e esquecemos – de tentar restituir o humano da forma mais completa e profunda. Porque temos a necessidade ainda de recorrer aos símbolos para nos fazer entender melhor passados tantos milhares de anos? Só eles podem elevar a nossa condição e entendimento momentâneos para uma eterna e concreta essência. Mamoru Oshii é, assim, o exemplo claro de um artista que, apesar da fama de futurista, é um antigo entre os modernos. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Safe

Título Original: Safe
Título Português: Safe - O Intocável
Realizador por: Boaz Yakin
Actores: Jason Statham, Catherine Chan, Reggie Lee, James Hong, Emile Dochesky, Robert John Burke
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 94 mins.
M/12Q
Cor e Som













Jason Statham está de regresso. A verdade é que também não andou muito longe. Depois de no ano passado se ter apresentado com The Mechanic, Killer Elite e Blitz, todos eles bons filmes de acção, eis que surge Safe. Não fugindo muito ao papel comum dos filmes de acção, Statham é um ex-polícia letal de Nova Iorque cujo erro ao deixar-se perder num combate de artes marciais enfurece a máfia russa e a polícia local corrupta, vendo a sua mulher assassinada e não podendo nunca mais travar amizade com alguém, senão essa pessoa também morreria. Por outro lado temos Catherine Chan a interpretar uma menina chinesa sobredotada e conhecedora de um importante número que interessa à máfia russa, à máfia chinesa e à polícia corrupta. É quando Jason Statham e a menina se cruzam que estão lançados os dados para mais um superior filme de acção.
Em termos de enredo e de originalidade, Safe não arrisca. Não são explorados novos campos na realização e o fio narrativo não surpreende muito. No entanto isso não impede Boaz Yakin de ter aqui uma boa realização, não o impedindo de usar algumas técnicas interessantes, como as fantásticas cenas de acção filmadas num só take. Destaque para uma cena em que Statham tem um corpo a corpo, um pequeno tiroteio e uma sucessiva perseguição automóvel, tudo num só take, a um estilo quase amador mas frenético e espectacular. No fundo é isso que é pretendido neste estilo de filme, e Safe fá-lo muito bem.
Falemos agora do actor principal, pois acaba por ser ele a principal motivação para ir ver Safe. Desde as aventuras com Guy Ritchie, Statham não tem fugido muito ao papel de herói de acção, apesar de ter sempre algumas nuances. Na verdade ele nunca é totalmente bom, e aqui isso não é excepção. Enquanto actor é muito bom, apesar do estilo de filme não ser muito exigente, mas se observarmos Revolver ou Lock, Stock a história já será outra.
Em conclusão Safe é  um bom filme de acção, moderno,e altamente entretenível, que não procura surpreender nem explora nada de novo, mas com um estilo particular interessante, um enredo directo e agradável, pouco pretensioso, apenas com os ingredientes necessários a agradar o público sedento de acção. E que melhor forma de o fazer que meter polícia, tríades e máfia russa num só filme? Mais uma vez Jason Statham demonstra que é o melhor actor de acção da actualidade. Esperam-se mais e melhores filmes, mas também a esperança de um regresso à comédia ou talvez a aventura de um outro género, porque Jason Statham tem capacidade e estilo suficiente para tudo isso. Mas não é de iludir, na acção Safe é do melhor que se pode fazer sem termos um génio criador por detrás como nos casos de Taken ou Haywire.

Nota: http://3.bp.blogspot.com/-TvLr7T4GLsY/T1VZ_Uu6GSI/AAAAAAAADKE/J1ZXy306DQI/s320/3stars.jpg

terça-feira, 15 de maio de 2012

Haywire

Título Original: Haywire
Título Português: Traição Fatal
Realizado por: Steven Soderbergh
Actores: Gina Carano, Michael Fassbender, Ewan McGregor, Chnning Tatum, Michael Douglas, Antonio Banderas, Bill Paxton
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos/Irlanda
Duração: 93 mins.
M/12
Cor e Som











Steven Soderbergh está de regresso, num instante, após Contágio, no seu 8º filme nos últimos 3 anos. Soderbergh está imparável. Desta vez com Haywire, o realizador dá uma lição sobre o que é um filme de acção e consegue-o imaculadamente. Vai buscar Gina Carano, praticante de artes marciais, que nem sequer é actriz, e coloca-a no papel principal de um filme preenchido por um leque de nomes sonantes do cinema actual. Fez muito bem. Além de ser uma "actriz" que encaixa bem no estilo de filme pretendido, actuando de acordo com aquilo que o filme exige, é perfeita no que toca à acção. E Soderbergh esfrega-nos na cara o que se pretende num filme de acção.
A narrativa é reduzida ao máximo, limitando-se a um fio condutor duma história que aparentemente é simples, mas que tem algumas nuances. Na forma como é apresentada, a "redução" por vezes confunde o espectador que deve estar atento. No entanto tal não será absolutamente necessário para retirar prazer desta Traição Fatal e não é nem de perto nem de longe a confusão narrativa inimiga do espectador, diria mesmo ofensiva, de filmes como o recente Tinker Taylor Soldier Spy (A Toupeira).
O leque soberbo de actores que acompanha Gina Carano nos papéis secundários tem uma participação algo reduzida no que toca a tempo, mas essa é também uma opção curiosa. Com actores como Michael Douglas ou Fassbender, entre todos os outros, Soderbergh opta por lhes atribuir apenas o tempo de écran necessário ao filme de acção que está a realizar.
E é aí que compete então aflorar o motivo pelo qual Haywire é tão bom. A forma como a acção é filmada, seca e brutal, praticamente sem acompanhamento musical, é um luxo de pureza do que deveria significar filmar um filme deste género. O movimento de câmara é original, nada ortodoxo, com um feel quase amador, mas que não o é. Já em Taken, com Liam Neeson, tínhamos tido umas luzes sobre este sentido de filmar a acção, mas com Haywire esse é mesmo o objectivo do filme. Deve ser dado o exemplo da cena inicial do filme, onde de uma conversa de café inocente de repente se parte para uma cena de acção tão sóbria como uma esponja seca e tão fria como um cubo de gelo, filmada num único take, numa coreografia por demais realista. Ou mesmo uma outra onde certo vilão observa o mar e observamos ao longo de um minuto a personagem de Gina Carano a aproximar-se dele correndo no horizonte, sem qualquer acompanhamento musical, sem qualquer crescendo de tensão desnecessário, sem qualquer sobre-dramaturgia, sem qualquer, digamo-lo agora sem rodeios, "palhaçada" que mancha os vulgares filmes de acção.
No final não ficamos com aquela sensação arrebatadora tradicional de se ter visto um "grande" filme, como se sente nos filmes de Christopher Nolan por exemplo. Haywire não provoca essa sensação. Mas a verdade é que objectivamente Haywire é excelente naquilo que pretende e julga que deve ser. E contra factos, como se costuma dizer, não há argumentos. Não está ao nível do soberbo Ocean's Twelve, a nosso ver a obra suprema de Soderbergh, mas Haywire é um excelente exercício de cinema objectivo. Infelizmente a generalidade do público assim não o entenderá, como não o entendeu em Ocean's Twelve (fortemente criticado negativamente pelo espectador "médio"), como comprovarão as médias em sites de opinião pública como o IMDb. Haywire é mais um que não escapará a ser injustiçado, mas será um dia sem dúvida reconhecido.


Nota: