sábado, 23 de fevereiro de 2013

Django Unchained

Título Original: Django Unchained
Título Português: Django Libertado
Realizado por: Quentin Tarantino
Actores: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington
Data: 2012
País de Origem: Estados Unidos
Duração: 165 mins
M/16Q
Cor e Som












Tendo consciência da extensão da crítica que se segue, penso que este é um daqueles poucos casos em que se justifica. Sempre que acabamos de ver um novo filme de Tarantino fica a ideia de que "este sim, é o melhor filme dele!". Por muito arrogante e pretenso intelectual que o homem pretenda ser (e é!), no que toca a realizar temos que lhe fazer a devida vénia, pois o produto final é, de todas as vezes, soberbo.
Tarantino tem vindo a amadurecer. Em Inglorious Basterds apresentou-nos uma estrutura de cinema muito clássica, longe da alarvidade (também ela fantástica, atenção) de Death Proof, da simplicidade de Reservoir Dogs, da acção de Kill Bill e da estrutura de vários quadros paralelos de Pulp Fiction. Django Unchained segue essa estrutura clássica, desta vez em formato western. No entanto, apesar da estrutura ser clássica há aqui um sentido de renovação que deixa água na boca. Falo por exemplo, da temática do racismo, aqui cruamente explorada, da banda sonora que mistura antigo e moderno (Requiem de Verdi, tema do Django original de 1966 e temas de hip hop contemporâneo), da forma como as cenas são filmadas (os zoom ins bruscos típicos de filmes de série B ao estilo de Death Proof), etc... No fundo é um western renovado (um cowboy de raça negra é algo nunca antes visto), tal como Death Proof era um série Z renovado. 
Este Django Unchained tem muito por onde pegar. De facto, como apontam alguns críticos que guardam rancor à obra de Quentin Tarantino, sendo que alguns até elegem Jackie Brown como o último grande filme ou mesmo o melhor do realizador, o que deve ser decerto uma piada, Django não é de todo uma desculpa para Tarantino espalhar carnificina e alarvidade pelas belas paisagens do Oeste selvagem, e a autenticidade dos diálogos que nos deliciam desde Reservoir Dogs estão longe de estar perdidos. Arriscaria até dizer que nunca estiveram tão bons. Django encaixa cenas e diálogos, como se de um livro separado por capítulos se tratasse. Tudo está tão bem colocado que nem a "economia" de Zero Dark Thirty consegue vencer. E melhor que tudo estar perfeitamente colocado, é tudo estar perfeitamente personalizado. Nenhuma fala, emoção, plano ou som é deixado ao acaso: tudo tem dedo do realizador que, não obstante, deixa os seus actores excederem-se no bom sentido. Relembremos o diálogo de confronto entre DiCaprio, Waltz e Foxx onde o primeiro se corta ao dar um murro na mesa e toma improvisadamente a decisão de continuar a cena, a sua "representação", naquela que se virá a tornar uma das cenas de antologia da obra de Tarantino.
Django Unchained é audacioso, não há dúvida, talvez por isso custe ainda à Academia e outras organizações atribuir prémios a Tarantino, mas a personalidade dos seus filmes fala por si, e é por isso que filmes como American Psycho, Laranja Mecânica ou Trainspotting serão sempre filmes de culto. E é isso que gostamos de ver enquanto espectadores. É isso que mantém o prazer de estar a ver um filme durante quase 3 horas sem um único minuto de aborrecimento ou desinteresse. Sim, Tarantino não se coíbe de alterar a história a seu bel prazer para criar situações atípicas nos seus filmes (a dinamite ainda não tinha sido inventada no ano em que se desenrola Django Unchained), mas se não tivesse morto Hitler em Inglorious Basterds talvez esse filme não tivesse o significado que teve, e isso não é nenhum motivo de castração. O objectivo do cinema não é fazer documentários, essa é apenas uma das suas vertentes...
E quanto a actores o que poderemos dizer? Bem, sem dúvida poderemos dizer que o mais espantoso neste campo é Leonardo DiCaprio que, do ponto de vista do que penso ser a maioria, consegue mesmo superar Christoph Waltz. DiCaprio está acima do muito bom, ao interpretar o vilão, um proprietário de uma plantação, tão idiota quanto racista e orgulhoso. É o humor negro personificado. Waltz está também ao seu nível, tão bom como em Basterds. Samuel L. Jackson quase se supera, tendo igualmente muitos simpatizantes que o elegem como detentor da melhor prestação no filme. Jamie Foxx, também óptimo, reveste a personagem do herói que é a peça central da trama que move o filme e cuja caracterização é complementada por estas excelentes personagens secundárias, nomeadamente Christoph Waltz, que o acompanha desde o início.
A banda sonora, escolhida a dedo, desenterra temas como Freedom na versão de Richie Havens (Woodstock), clássicos de Morricone ou Jerry Goldsmith com Pat Metheny, bem como algum hip hop moderno que pela sua mera inserção no filme solta uma gargalhada de boa disposição ao espectador. 
Este Django Unchained, tal como praticamente toda a obra de Tarantino, deixa a sensação de que tivemos direito a uma refeição completa a um preço barato que nada custou "pagar". Aparentemente não é tão profundo como Inglorious Basterds nem tão bem construído como Pulp Fiction, mas isso não é verdade, pois o seu próprio formato e género (western) não o permitiriam. No entanto é, dentro do que pode ser, uma espécie de auge. E pela primeira vez num filme de Tarantino, e isso é muito importante, tem cenas que realmente incomodam e questionam o espectador obtendo um respeito diferente, quiçá maior, da nossa parte.
Tudo isto torna impossível responder à questão "Qual é afinal o melhor filme de Tarantino?". Todos são igualmente bons, pois todos abordam um tipo de cinema diferente. Apenas a personalidade se mantém... Desse ponto de vista é difícil decidir se todos os filmes são muito bons ou se são mesmo excelentes. Continuemos então com esperança que surja através do nevoeiro a verdadeira e única obra máxima de Tarantino...

Nota: http://3.bp.blogspot.com/-iGgayuPEgnE/T1VNpGOTuMI/AAAAAAAADJU/sAR3D4XFQdQ/s1600/4stars.jpg

2 comentários:

Pedro Silva disse...

4 estrelas

Tony C disse...

Até concordo com a maioria das coisas mas nao concordo com o "talvez seja a obra mais significativa pq da que pensar", nao sei bem se foram verbatim as tuas palavras mas o tarantino desde o dia 1 se esta a borrifar para dar liçoes do que quer que seja no seu cinema e nao acho que seja por abrir um debate sobre a escravida oque existiu que deixa de ser mais ou menso importante. o cinema do tarantino para mim é unico. Gostei de ler a tua opiniao sobre ofilme e o Tarntino. So ano percebo a nota. Ah, e para mim ha um filme que se nao é perfeito roça a perfeiçao. Para mim é e acho que muito dificlmente gostarei tanto de um filme como o Pulp Fiction. E nao é por ser o mais famoso ou mais galardoado que digo isto que isso dos premios é oque toda a gente sabe. Aqui fica o meu nickle(five cents) lol